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A Moda Precisa de Gênios Problemáticos Para ser Genial?

Por Katarina Reis Teixeira  John Galliano, o mito do "artista difícil" e os limites entre reabilitação e consagração A escolha de ...

 A Moda Precisa de Gênios Problemáticos Para ser Genial?

Por Katarina Reis Teixeira 

John Galliano, o mito do "artista difícil" e os limites entre reabilitação e consagração

A escolha de John Galliano para uma grande exposição no Metropolitan Museum of Art, anunciada para 2027 e posteriormente cancelada, recolocou em discussão uma questão que ultrapassa a trajetória de um único estilista: até que ponto a moda está disposta a separar genialidade artística de comportamento pessoal? Galliano é, sem dúvida, uma das figuras mais influentes da moda contemporânea. Sua passagem por casas como Givenchy, Dior e Maison Margiela transformou a maneira como desfiles, narrativas e personagens podem ser construídos dentro da moda. Sua contribuição para a indústria é histórica e seria intelectualmente desonesto tentar apagá-la. O problema começa quando o reconhecimento de uma obra passa a funcionar como justificativa para a consagração de seu autor, independentemente das circunstâncias que marcaram sua trajetória.

Foto via beaumontenterprise
O caso de Galliano é particularmente complexo porque não se trata apenas de uma personalidade considerada difícil ou de episódios de comportamento inadequado. Em 2011, o estilista foi condenado na França por declarações racistas e antissemitas feitas em Paris. Durante o julgamento, foram apresentadas acusações de que ele teria dirigido a Géraldine Bloch as expressões *"d1rty J3wish face"* e *"f*cking ugly J3wish b*tch"*, além de ter chamado Philippe Virgitti de *"f*cking As1an bastard"*. As declarações foram relacionadas a episódios ocorridos entre 2010 e 2011 e tiveram consequências profissionais imediatas para o estilista, que deixou a direção criativa da Dior.

A situação ganhou uma dimensão ainda mais grave quando um vídeo gravado em um bar parisiense veio a público. Nas imagens, Galliano aparece dizendo *"I love H1tler"* e fazendo referências a pessoas que deveriam estar mortas e gaseadas. O vídeo não apresentava apenas uma provocação estética ou uma manifestação política controversa, mas referências explícitas ao nazismo e ao extermínio de grupos perseguidos durante o Holocausto. Durante o julgamento, Galliano afirmou que aquelas não eram opiniões que sustentava ou nas quais acreditava e relacionou aquele período de sua vida à dependência de álcool, medicamentos e outras substâncias.

Foto via IMDB

Foto/Print via CNN

É importante reconhecer esse contexto sem utilizá-lo como uma forma de absolvição. Galliano passou por um processo de recuperação, declarou-se sóbrio e, ao longo dos anos, conseguiu reconstruir sua carreira. Seu retorno à indústria não aconteceu imediatamente e foi acompanhado por um processo público de responsabilização e mudança. A passagem pela Maison Margiela, em particular, mostrou que sua capacidade criativa continuava intacta e que ele permanecia capaz de produzir trabalhos relevantes para a história da moda. A existência desse processo de recuperação também é importante porque não acredito que uma pessoa deva ser eternamente reduzida ao pior momento de sua vida. Arrependimento, tratamento e mudança são possibilidades reais e precisam ser consideradas quando se discute a trajetória de qualquer indivíduo.

O problema está em confundir essa possibilidade de reabilitação com a obrigação de restaurar uma posição de prestígio. Uma pessoa pode reconstruir sua carreira sem que isso signifique que todas as instituições devam novamente colocá-la no mesmo lugar simbólico que ocupava antes. Existe uma diferença entre permitir que alguém trabalhe, reconheça seus erros e siga sua vida e transformar essa pessoa em objeto de uma grande celebração cultural. No caso de um museu como o Metropolitan Museum of Art, essa diferença ganha ainda mais importância porque uma exposição do Costume Institute não representa apenas uma análise histórica. Ela também determina quais trajetórias são consideradas suficientemente relevantes para ocupar o centro da narrativa cultural da instituição. É justamente nesse ponto que a escolha de Galliano provocou questionamentos: tratava-se de dedicar a ele uma grande exposição individual, uma forma de reconhecimento institucional de enorme peso dentro da indústria — e, segundo a CNN, a data prevista para o Met Gala de 2027 coincidiria com o Yom HaShoah, o dia de memória às vítimas do Holocausto, o que intensificou as críticas. A reação de grupos judaicos e de outras pessoas que consideravam a homenagem incompatível com o histórico do estilista mostrou que o problema não estava necessariamente em estudar Galliano, mas na maneira como essa história seria apresentada e no significado de colocá-lo novamente em uma posição de consagração. Em 31 de agosto de 2026, o Met e Galliano anunciaram que a exposição não seguiria adiante como planejado. Em comunicado, o diretor do museu, Max Hollein, declarou que, "após conversas cuidadosas com John Galliano, decidiram juntos não seguir com a exposição" (Bloomberg, 31/08/2026). O próprio estilista, no mesmo comunicado, afirmou seguir "plenamente responsável pela dor causada por [suas] palavras no passado" (Bloomberg, 31/08/2026), especialmente às comunidades judaica e asiática, e reconheceu que uma exposição ou outro reconhecimento institucional não constitui, por si só, uma forma de reparação.

Existe uma tendência histórica de romantizar o chamado "gênio difícil", como se criatividade excepcional estivesse naturalmente associada a comportamentos autodestrutivos, excesso, abuso, dependência ou transgressão moral. O problema não é reconhecer que grandes artistas podem ser pessoas complexas, contraditórias e imperfeitas. O problema está em transformar essas características em parte da própria mitologia do talento, como se o sofrimento ou a instabilidade fossem ingredientes necessários para produzir algo extraordinário.

A moda já demonstrou outras vezes como é capaz de transformar comportamentos e padrões prejudiciais em estética. Nos anos 1990, por exemplo, o chamado "heroin chic" levou para campanhas e editoriais uma aparência extremamente magra, abatida e associada visualmente ao consumo de drogas. Kate Moss tornou-se um dos principais símbolos dessa estética, embora tenha negado posteriormente o uso de heroína. O fenômeno não pode ser atribuído a uma única modelo, porque envolveu fotógrafos, revistas, marcas, agências e uma indústria inteira que encontrou valor comercial naquela imagem. Ainda assim, o episódio mostra como uma determinada estética pode ultrapassar as passarelas e se transformar em referência para pessoas que não fazem parte daquele círculo profissional.

Esse aspecto é particularmente relevante porque a moda, apesar de possuir espaços extremamente exclusivos, não pertence somente às pessoas que trabalham dentro dela. Uma adolescente que acompanha uma modelo nas redes sociais, uma jovem que descobre um estilista por meio de uma campanha ou uma pessoa que vive em uma cidade pequena e encontra na moda uma forma de expressão também participa desse universo. Quando uma indústria escolhe quem transforma em referência, portanto, não está falando apenas para os profissionais que já estão dentro dela. Está também ajudando a construir imaginários para quem está chegando.

Por isso, não considero necessário que a moda abandone figuras controversas ou tente reescrever sua própria história para se tornar moralmente confortável. A história da cultura é cheia de contradições, e esconder essas contradições não produz uma narrativa mais verdadeira. O que pode mudar é a maneira como essas pessoas são apresentadas. É possível estudar a obra de Galliano, reconhecer sua influência, analisar sua contribuição para a Dior ou para a Maison Margiela e, simultaneamente, apresentar de maneira clara o episódio de 2011, suas consequências e o processo posterior de recuperação. O público não precisa receber uma versão higienizada de sua trajetória.

Essa preocupação também exige cuidado quando falamos sobre antissemitismo. As discussões políticas contemporâneas envolvendo Israel e Palestina não diminuem a gravidade histórica do antissemitismo nem tornam aceitável a reprodução de discursos de ódio contra judeus. Da mesma maneira, reconhecer violações cometidas por qualquer Estado ou grupo político não exige relativizar a história de perseguição, expulsão, violência e genocídio enfrentada pelo povo judeu. A memória do Holocausto, assim como a memória da escravidão, do racismo e da violência contra mulheres, precisa permanecer como parte da consciência coletiva justamente para que acontecimentos desse tipo não sejam normalizados conforme as circunstâncias políticas de cada período.

É nesse contexto que a frase *"I love H1tl3r"* não pode ser tratada simplesmente como mais uma excentricidade de um artista que estava passando por uma fase difícil. O contexto pessoal de Galliano pode ajudar a compreender o período, mas compreender não significa justificar. A possibilidade de recuperação de alguém também não exige que outras pessoas deixem de considerar doloroso aquilo que foi dito. Uma sociedade madura deveria ser capaz de sustentar essas duas ideias ao mesmo tempo: pessoas podem mudar, e determinados atos continuam tendo peso histórico.

Talvez essa seja a discussão mais importante deixada pelo episódio. A moda não precisa apagar John Galliano, assim como não precisa fingir que sua contribuição artística não existiu. O que ela pode fazer é deixar de tratar a genialidade como uma espécie de salvo-conduto moral. Não há necessidade de escolher entre reconhecer o talento de alguém e reconhecer a gravidade de suas ações. É possível fazer as duas coisas e, justamente por isso, construir uma história da moda mais honesta.

Foto/Print traduzido via Instagram John Galliano

Também é possível imaginar uma indústria em que criatividade, inovação e transgressão estética não dependam da construção de personagens autodestrutivos. A moda pode ser provocadora sem ser preconceituosa, experimental sem ser abusiva e radical sem transformar sofrimento em requisito de autenticidade. Isso não significa exigir artistas perfeitos, porque perfeição não existe. Significa apenas reconhecer que o comportamento destrutivo não deveria ser tratado como uma extensão natural do talento.

O cancelamento de John Galliano: Horizons não encerra essa discussão. Pelo contrário, talvez seja uma oportunidade para o setor pensar com mais cuidado sobre a diferença entre preservar uma obra, estudar uma trajetória, reconhecer uma contribuição e oferecer uma homenagem. Essas decisões não precisam produzir apagamento histórico, mas também não deveriam ignorar aquilo que tornou determinada trajetória controversa.

Galliano continuará fazendo parte da história da moda, e sua importância para a construção da linguagem contemporânea do fashion continuará sendo reconhecida. O que pode mudar é a necessidade de transformar todo grande criador em um ídolo e, principalmente, a ideia de que a moda precisa de personalidades controversas para provar que é criativa. Talvez a indústria tenha mais a ganhar quando deixar de confundir transgressão artística com transgressão moral. Afinal, a moda não existe apenas para aqueles que já têm acesso a ela. Ela também é construída por quem olha de fora, se inspira, experimenta e encontra naquele universo uma possibilidade de identidade. Se queremos que a moda continue sendo uma forma de expressão capaz de alcançar pessoas tão diferentes, talvez também seja necessário pensar com mais responsabilidade sobre quem escolhemos colocar como seus grandes símbolos.


*Nota: algumas palavras e expressões citadas neste texto, reproduzidas de declarações feitas por Galliano e de acusações apresentadas em julgamento, foram grafadas com pequenas alterações para evitar sua identificação automática por filtros de conteúdo. O sentido e a atribuição original das falas foram mantidos.*



Referências
  1. THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Announcement on The Met’s Spring 2027 Costume Institute Exhibition. New York, 31 ago. 2026. — Fonte primária para o cancelamento de John Galliano: Horizons e para as declarações de Max Hollein e John Galliano. 
  1. THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. The Met Announces the Spring 2027 Costume Institute Exhibition, John Galliano: Horizons. New York, 31 jul. 2026. — Fonte primária para a proposta original da exposição, sua dimensão institucional e a descrição de Galliano como um dos designers mais influentes das últimas quatro décadas. 
  1. CHRISAFIS, Angelique. John Galliano faces racism trial in Paris. The Guardian, 21 jun. 2011. — Fonte para o julgamento, as acusações de racismo e antissemitismo, a relação com sua dependência de álcool e medicamentos e o contexto da saída da Dior. 
  1. CHRISAFIS, Angelique. Did you launch a racist, antisemitic rant? I can’t remember, Galliano tells French court. The Guardian, 22 jun. 2011. — Fonte especialmente importante para as declarações apresentadas no tribunal, incluindo “dirty Jewish face”, “fucking ugly Jewish bitch”, “fucking Asian bastard” e a resposta de Galliano sobre o vídeo em que dizia “I love Hitler”. 
  1. WILLSHER, Kim. Galliano’s future at Dior in doubt as footage shows him saying ‘I love Hitler’. The Guardian, 28 fev. 2011. — Fonte para o vídeo divulgado em 2011, as acusações iniciais e o contexto que levou à suspensão de Galliano pela Dior. 
  1. MALIK, Shiv. John Galliano verdict imminent. The Guardian, 8 set. 2011. — Fonte para o processo judicial e o desfecho da acusação, além de registrar novamente as declarações apresentadas durante o julgamento. 
  1. THE GUARDIAN. Fashion Statement: the most read fashion stories of the year. 23 dez. 2011. — Pode ser usada como fonte complementar para o histórico do caso, incluindo a condenação de Galliano por insultos públicos baseados em origem, religião, raça ou etnia.