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ERA APENAS UMA CORRIDA DE APLICATIVO

Por Katarina Reis Teixeira 7 Minutos Em 1 Hora U ma corrida que deveria durar poucos minutos acabou se transformando em uma situação que me ...

ERA APENAS UMA CORRIDA DE APLICATIVO

Por Katarina Reis Teixeira

7 Minutos Em 1 Hora

Uma corrida que deveria durar poucos minutos acabou se transformando em uma situação que me deixou com medo, insegura e com uma sensação muito difícil de explicar: a de não ter controle sobre algo que deveria ser simples.

Foto via Kelliebrew's World (Pinterest) 

A viagem estava prevista para durar cerca de sete minutos. Porém, durante o trajeto, o motorista começou a fazer voltas longas sem a minha autorização, mudando completamente o caminho esperado. Conforme o tempo passava, eu tentava entender o que estava acontecendo e pedia para que ele retornasse ao local correto.

O que mais me assustou não foi apenas a mudança de rota, mas a sensação de vulnerabilidade. Em determinado momento, eu precisei insistir para que ele voltasse e cheguei a dizer que chamaria a polícia, porque eu já estava com medo do que poderia acontecer.

Como mulher, estar sozinha dentro de um carro com uma pessoa que não está seguindo o combinado gera uma insegurança que vai muito além de um simples atraso. Não é apenas sobre chegar alguns minutos depois. É sobre sentir que você precisa lutar para garantir algo básico: a sua própria segurança.

A situação ficou ainda mais preocupante quando ele demonstrou querer me deixar em um local sem estrutura adequada para pedestres, em uma região com várias faixas de carros. Naquele momento, eu não estava pensando apenas no destino final, mas em como sair daquela situação da forma mais segura possível.

No fim, eu nunca cheguei ao meu destino. Uma corrida que deveria durar poucos minutos se transformou em quase uma hora de tensão. Tenho prints, localização compartilhada e registros do trajeto que mostram o que aconteceu.

Por isso, farei a denúncia do motorista e também questionarei a responsabilidade da empresa. Eu não considero justo pagar por uma viagem que não aconteceu da forma contratada e que, além disso, me colocou em uma situação de risco.

Mas essa experiência também me fez refletir sobre uma questão maior: a segurança dentro dos aplicativos de transporte.

Muitas plataformas já oferecem alternativas como a possibilidade de escolher motoristas do mesmo gênero, principalmente pensando na segurança das mulheres. E, sim, acredito que muitas passageiras se sentem mais confortáveis com essa opção. Mas será que isso é suficiente?

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva mostrou que a insegurança nos deslocamentos ainda faz parte da realidade de muitas brasileiras. O levantamento apontou que 97% das mulheres entrevistadas afirmaram já ter passado por algum tipo de assédio em meios de transporte, incluindo transporte público, táxis e aplicativos. Em uma pesquisa mais recente das mesmas instituições, com mais de 4 mil mulheres, 97% afirmaram sentir medo de sofrer violência durante seus deslocamentos, sendo que 80% disseram sentir muito medo. Esses dados mostram que a discussão sobre segurança no transporte vai além de uma experiência individual: ela envolve uma questão social sobre como mulheres ocupam e circulam pelos espaços. (Dossiês do Instituto Patrícia Galvão)

Na minha visão, segurança não deveria depender apenas do gênero de quem está dirigindo. Pessoas mal-intencionadas existem em diferentes perfis. O cuidado precisa ir além: envolve processos de verificação, suporte eficiente, acompanhamento das corridas e, principalmente, preparação das pessoas que prestam esse serviço.

Mesmo sendo profissionais autônomos, esses motoristas representam uma empresa no momento em que aceitam uma corrida. Existe uma marca envolvida, existe uma experiência de serviço e existe uma responsabilidade. Por isso, acredito que deveria existir algum tipo de treinamento, não apenas sobre direção, mas também sobre atendimento, comunicação e como lidar com situações de conflito.

Porque um serviço não pode depender apenas da personalidade ou do humor de quem está trabalhando naquele dia. Empresas precisam estabelecer padrões. O cliente não deveria sentir que está recebendo um favor por utilizar algo pelo qual está pagando.

E essa é uma sensação que muitas pessoas relatam: em alguns momentos, parece que o passageiro precisa pagar cada vez mais para receber o básico — educação, respeito e atenção. Cheguei até a brincar recentemente que, daqui a pouco, o aplicativo vai cobrar apenas para mostrar o motorista, porque ele faria a corrida sozinho. É uma ironia, mas revela uma percepção que muitos usuários têm sobre a queda na qualidade da experiência.

Mas também é importante dizer: essa não é uma realidade de todos os motoristas. Existem muitos profissionais responsáveis, educados e comprometidos em oferecer um bom serviço. A questão não é generalizar, mas discutir a necessidade de um padrão mínimo que não dependa apenas da boa vontade de cada pessoa.

Da mesma forma, a segurança precisa ser pensada para os dois lados. Muitos motoristas também relatam sentir medo durante as corridas e acabam criando formas próprias de proteção, como gravações e registros. Nas redes sociais, vemos diversos profissionais compartilhando situações em que se sentem inseguros com passageiros.

Talvez o caminho não seja criar uma relação baseada em desconfiança, mas construir uma estrutura onde ambos os lados tenham segurança: motorista e passageiro.

No fim, uma corrida de aplicativo não é apenas uma rota no mapa. Existe uma relação de confiança envolvida. Quando essa confiança é quebrada, principalmente em uma situação de vulnerabilidade, isso precisa ser levado a sério.

O que aconteceu comigo não foi apenas um erro de percurso. Foi uma situação que me fez questionar como esses serviços estão preparados para lidar com segurança, respeito e responsabilidade.

Porque segurança não deveria ser uma preocupação depois que algo acontece. Ela deveria ser o ponto de partida.