Por Katarina Reis Teixeira
Entre a mão, a máquina e o futuro
Na abertura da Milan Fashion Week, em 22 de setembro, a Vogue transformou a Galleria Vittorio Emanuele II em palco para uma narrativa que atravessou séculos de moda, artesanato, indústria, cinema, cultura pop e tecnologia. O Vogue World: Milano não foi apresentado como um desfile convencional, mas como um espetáculo dividido em atos, com modelos, atores, músicos, atletas, performers e alguns dos nomes mais conhecidos da moda italiana ocupando o mesmo espaço. (Vogue)
A escolha da Galleria também não parece casual. Inaugurada em 1877, a construção conecta a Piazza del Duomo à Piazza della Scala e é um dos símbolos arquitetônicos de Milão. Conhecida como o "salão de Milão", ela reúne comércio, história, arquitetura e cultura no centro da cidade. É um cenário marcado pela memória, mas que, durante o Vogue World, recebeu uma narrativa que terminava justamente olhando para aquilo que ainda não existe. (Vogue)
E talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais interessantes do evento: o que acontece quando uma celebração do trabalho feito à mão termina colocando máquinas no centro da cena?
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| Foto via glistatigenerali |
O Vogue World e a ideia de transformar moda em espetáculo
Criado em 2022, o Vogue World nasceu como uma maneira de transformar o universo da Vogue em um evento público que pudesse reunir moda, cultura e entretenimento. Depois de passar por Nova York, Londres, Paris e Los Angeles, a quinta edição chegou a Milão justamente no primeiro dia da semana de moda italiana. (Vogue)
A edição italiana tinha uma particularidade importante: não pretendia apenas apresentar roupas. A proposta era contar uma história sobre o próprio desenvolvimento da cultura italiana e, principalmente, sobre o papel do trabalho manual diante das transformações tecnológicas.
Francesca Ragazzi, head of editorial content da Vogue Italia, resumiu a intenção ao dizer que o evento seria uma oportunidade de celebrar a história do Made in Italy, do gênio e do artesanato, justamente "na era da inteligência artificial". (Vogue)
Anna Wintour, que hoje ocupa os cargos de Chief Content Officer da Condé Nast e Global Editorial Director da Vogue, também esteve diretamente ligada ao projeto. Ao apresentar Milão como sede, ela destacou a cidade como um lugar onde artesanato, modernidade, arte, literatura, ópera e indústria convivem historicamente. (Vogue)
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| Foto via @voguemagazine |
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| Foto via @voguemagazine |
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| Foto via vogue.com |
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| Print via Vogue World Milão e Filme Diabo Veste Prada |
Da oficina renascentista à inteligência artificial
A estrutura do Vogue World foi construída em cinco atos, e essa divisão ajuda a entender por que os robôs aparecem.
O primeiro, The Artisanal Revolution, parte do Renascimento e de uma Itália em que artistas, artesãos e inventores trabalhavam em diferentes áreas ao mesmo tempo. Brocados, rendas, ornamentos e superfícies trabalhadas manualmente aparecem como representação desse período. (Vogue)
Depois vem The Industrial Revolution, que desloca a narrativa para Turim e para a industrialização italiana. A oficina dá lugar à produção em escala, ao universo automobilístico, às modelagens mais precisas e aos tecidos produzidos industrialmente.
O terceiro ato, Made in Italy, muda novamente de linguagem. Entram a cor, a estampa, o cinema italiano e a atmosfera de La Dolce Vita, com referências a Federico Fellini e à construção da figura da diva italiana. (Vogue)
No quarto ato, The Age of Intelligence, a moda chega ao laboratório. Tecidos inteligentes e sustentáveis passam a responder a temperatura, movimento, desempenho e condições ambientais. A narrativa desloca a tecnologia de ferramenta industrial para elemento de criação. (Vogue)
E então chegamos a The Imagination Revolution, o último capítulo, que deixa de estar preso a um período histórico específico e passa a imaginar um futuro possível.
Existe, portanto, uma progressão bastante clara: a mão, a máquina, a cultura de massa, a inteligência e, finalmente, a especulação sobre o futuro.
É uma maneira bastante convencional de organizar uma história de evolução tecnológica, mas também é uma escolha coerente com a proposta do evento.
O artesanato antes dos robôs
O interessante é que a Vogue não começou essa conversa com os robôs.
Antes do evento, a publicação apresentou artesãos e profissionais ligados ao Made in Italy, discutindo justamente a transmissão de conhecimento entre gerações, a produção manual, os tecidos e as transformações provocadas pela tecnologia. A ideia de preservar o conhecimento artesanal enquanto a indústria se transforma aparece como uma das questões centrais dessa narrativa. (Vogue)
Isso também aparece na fala de Lorenzo Bertelli, da Prada, durante a apresentação do projeto. Ao falar sobre inteligência artificial e automação, Bertelli afirmou que a discussão não deveria ser sobre substituir a expertise, mas sobre criar ferramentas melhores. Para ele, o artesão continua central porque seu trabalho não pode ser substituído. (Vogue)
Essa declaração é importante porque coloca a tecnologia em uma posição diferente daquela que normalmente aparece no debate sobre IA: não necessariamente como substituta da mão humana, mas como ferramenta que pode coexistir com ela.
E essa parece ser, pelo menos no discurso oficial, uma das ideias que o Vogue World pretendia explorar.
Quando a máquina entra em cena
É justamente por isso que essa cena chama tanta atenção.
Os robôs humanoides da empresa chinesa Unitree apareceram durante o quarto ato do espetáculo, interagindo com o público e acompanhando L'Amour Toujours, de Gigi D'Agostino. Eles não estavam apresentando roupas ou acessórios. Eram, naquele momento, a própria representação física da tecnologia. (Observador)
A reação de Miuccia Prada e Alessandro Michele rapidamente ganhou atenção nas redes sociais. Os dois foram filmados olhando para a apresentação com expressões que muitas pessoas interpretaram como estranhamento ou desaprovação. Publicações como o Observador registraram essa repercussão, enquanto o nss magazine foi ainda mais longe ao interpretar as expressões dos designers como sinal de decepção. (Observador)
Mas existe uma diferença importante entre registrar uma reação e saber o que uma pessoa estava pensando.
Não é possível afirmar, apenas pelas imagens, que Prada ou Michele tenham rejeitado os robôs. Poderia ser surpresa, concentração, estranhamento, crítica ou simplesmente uma reação momentânea.
Ainda assim, a imagem funciona porque coloca dois universos frente a frente: alguns dos principais nomes da criação de moda italiana observando uma máquina ocupar o lugar tradicionalmente reservado ao corpo humano.
E existe uma pergunta financeira nessa história
É aqui que o Vogue World fica ainda mais interessante.
Entre os apoiadores do evento estavam ALO, eBay, Eli Lilly and Company e Meta Glasses. O evento também teve apoio adicional de FedEx e OpenAI. Isso consta na própria programação oficial publicada pela Vogue. (Vogue)
Isso não significa que a OpenAI tenha pedido os robôs, escolhido o conceito ou interferido na direção criativa. Não encontrei, até o momento, uma declaração pública que estabeleça essa relação.
Mas significa que existe, objetivamente, uma empresa diretamente ligada ao desenvolvimento de inteligência artificial generativa entre os apoiadores do evento.
E isso torna inevitável uma pergunta que vai além do desfile: quando a inteligência artificial passa a participar economicamente dos grandes acontecimentos culturais da moda, sua presença no discurso visual desses acontecimentos continua sendo apenas uma escolha estética ou também começa a refletir uma transformação econômica do próprio setor?
A pergunta ganhou força porque a participação de empresas de tecnologia no Vogue World de Milão foi observada também pelo nss magazine, que chamou atenção justamente para a presença de OpenAI e Meta entre os apoiadores e relacionou isso à aproximação cada vez maior entre Big Tech e moda. Essa é uma interpretação editorial da publicação, e não uma comprovação de que os patrocinadores tenham determinado o conteúdo criativo do evento. (nss magazine)
Talvez essa distinção seja importante.
Porque uma coisa é dizer que a IA financiou os robôs. Não temos evidência disso.
Outra, muito diferente, é perceber que a indústria de tecnologia já está entrando no espaço econômico e cultural da moda. E isso é verificável neste caso.
A moda já está aprendendo a conviver com isso
A questão também não surgiu em Milão.
Grandes empresas de tecnologia vêm ocupando espaços cada vez maiores dentro do imaginário da moda, enquanto marcas e veículos de comunicação experimentam inteligência artificial, realidade aumentada, geração de imagens, avatares, tecidos inteligentes e outras formas de tecnologia.
O que muda no Vogue World é que essa transformação deixa de aparecer apenas em uma campanha ou em uma imagem produzida digitalmente e passa a ser colocada dentro de uma narrativa histórica.
O evento praticamente diz: começamos com a mão, passamos pela máquina industrial e chegamos à inteligência.
Só que existe uma diferença entre contar essa evolução e discutir suas consequências.
E talvez tenha sido justamente aí que essa cena tenha provocado mais reação.
A inteligência artificial como futuro ou como espetáculo?
Existe uma certa contradição em apresentar o artesanato como centro de uma celebração e colocar em cena robôs que não vestem nenhuma peça.
Por um lado, a escolha pode ser lida como uma forma direta de representar o futuro. Por outro, ela pode parecer uma simplificação de uma discussão muito mais complexa.
O nss magazine, por exemplo, sugeriu que programar os robôs para cumprimentar o público como se fossem humanos pode ser uma forma de normalizar a presença dessas máquinas, mas não de justificá-la. (nss magazine) E isso acontece no ambiente mais simbólico possível: uma das maiores celebrações internacionais da moda.
É uma leitura crítica, não uma conclusão definitiva.
Mas é uma pergunta válida.
Porque, se a intenção era mostrar que tecnologia e artesanato podem coexistir, talvez o elemento mais interessante não fosse um robô simplesmente caminhando pela Galleria. Seria mostrar o que uma nova tecnologia permite que um artesão faça que antes não conseguia fazer.
Essa diferença muda tudo.
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| Foto via vogue.com |
Quando tecnologia e mão humana trabalham juntas
E o próprio Vogue World apresentou um exemplo muito mais complexo disso no encerramento.
Para a instalação final, o estúdio LoveFrom, de Jony Ive, criou mais de seis mil libélulas de papel que participaram da transformação visual da Galleria. A tecnologia não aparece simplesmente como substituta do trabalho humano: ela entra em um processo de planejamento, experimentação e construção de um ambiente físico. Segundo o SF Chronicle, a equipe da LoveFrom teria usado o Codex, sistema de engenharia de software da OpenAI, para simular a descida das peças. (SF Chronicle)
É uma imagem muito diferente daquela do robô.
Em vez de colocar máquina e ser humano em lados opostos, ela mostra uma possibilidade de colaboração.
E talvez essa seja uma discussão mais interessante para a moda neste momento: não perguntar apenas se a inteligência artificial vai substituir pessoas, mas quais partes do processo criativo podem ser ampliadas por ela sem eliminar o conhecimento que torna aquele trabalho humano reconhecível.
O Brasil dentro dessa conversa
No meio dessa narrativa italiana, o Brasil também apareceu.
Adriana Lima esteve entre os nomes brasileiros presentes no evento, ao lado de uma geração internacional de modelos e outras figuras da cultura. Sua presença também carrega uma dimensão particular: ela pertence a uma geração de modelos brasileiras que ajudou a construir a imagem internacional da moda brasileira nas últimas décadas.
E talvez seja justamente por isso que eu tenha ficado pensando em uma coisa.
Há alguns anos, a presença de uma brasileira em uma grande produção internacional poderia ser apresentada quase como uma novidade. Hoje, já não é.
O Brasil passou a fazer parte de uma espécie de vocabulário internacional da moda. Modelos brasileiras, designers, artistas e referências culturais do país circulam com muito mais naturalidade nesses espaços.
Isso não significa que a presença brasileira tenha perdido importância. Talvez signifique o contrário: ela deixou de precisar ser apresentada o tempo inteiro como uma exceção.
E existe uma questão interessante aí também. Se o Brasil vive um momento de maior visibilidade internacional em diferentes áreas da cultura, até que ponto essa presença ainda é tratada como novidade e até que ponto ela já faz parte da própria estrutura global da moda?
No Vogue World, a resposta parece estar mais próxima da segunda possibilidade.
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| Foto via @voguemagazine |
O passado dentro da Galleria
Talvez a escolha do espaço seja justamente o que impede que essa discussão fique restrita aos robôs.
A Galleria Vittorio Emanuele II não é apenas um cenário bonito. Sua arquitetura pertence a outro período da história italiana e carrega uma ideia de permanência. Cúpula de vidro, mosaicos, esculturas, lojas históricas e uma estrutura concebida no século XIX formam um ambiente que parece quase incompatível com uma máquina humanoide dançando diante do público.
Mas talvez essa incompatibilidade seja exatamente o ponto.
O Vogue World colocou dentro do mesmo espaço aquilo que normalmente imaginamos como passado e aquilo que imaginamos como futuro.
A questão é saber se o encontro produz reflexão ou apenas espetáculo.
O que fica depois dos robôs?
No fim, talvez seja cedo para dizer se o Vogue World conseguiu responder à pergunta que propôs.
Mas conseguiu formulá-la visualmente.
A história começou com o artesão, passou pela industrialização, chegou ao cinema, entrou no laboratório, chegou à inteligência artificial e terminou imaginando o futuro. Ao mesmo tempo, a própria produção tinha entre seus apoiadores uma empresa que está no centro da transformação tecnológica contemporânea.
Não é possível afirmar que uma coisa causou a outra.
Mas também seria estranho ignorar que elas aconteceram no mesmo evento.
Talvez a imagem mais interessante do Vogue World: Milano não seja a do robô. Talvez seja justamente a tensão entre ele e tudo aquilo que veio antes.
Porque, quando uma máquina entra em cena depois de uma longa celebração daquilo que mãos humanas são capazes de construir, a pergunta deixa de ser simplesmente "a tecnologia chegou à moda?"
Ela já chegou.
A pergunta passa a ser outra: o que a moda pretende fazer com ela?
Referências
- Billboard, cinco atos e quinta edição: https://www.billboard.com/music/music-news/cardi-b-jennifer-lopez-mgk-model-milan-fashion-week-vogue-1236345364/
- Vogue Adria, lista de patrocinadores da programação oficial: https://vogueadria.com/vogue-world-milano-2026-live/
- Observador, robôs, Prada e Michele: https://observador.pt/2026/09/23/os-robos-na-passarelle-que-causaram-aplausos-e-tambem-deixaram-alguns-dos-designers-de-moda-sem-reacao-o-desfile-do-vogue-world-em-milao/
- TechCrunch, robôs no Ato 4: https://techcrunch.com/2026/09/23/vogue-sent-robots-down-the-runway-at-vogue-world-and-people-were-not-impressed/
- Portal IN, robôs no quarto ato: https://www.portalin.com.br/notas/vogue-world-transforma-galleria-de-milao-em-manifesto-do-made-in-italy/
- Metropolitan Magazine, robôs no quarto ato: https://metropolitanmagazine.it/robot-intelligenza-artificiale-e-moda-e-questo-il-futuro-del-fashion-per-vogue-world-2026/
- nss magazine, Big Tech, OpenAI, Meta e robôs: https://www.nssmag.com/en/fashion/46968/vogue-world-milano-robot-big-tech-openai-meta-fashion
- SF Chronicle, LoveFrom, libélulas e Codex: https://www.sfchronicle.com/entertainment/article/vogue-world-milan-sf-22443922.php
- Streamlinefeed, cargos de Wintour e edição: https://streamlinefeed.co.ke/news/vogue-world-milano-pairs-celebrity-runway-with-library-pledge
- Wikipedia, Galleria Vittorio Emanuele II: https://en.wikipedia.org/wiki/Galleria_Vittorio_Emanuele_II
- Wikipedia, Vogue Italia (Francesca Ragazzi): https://en.wikipedia.org/wiki/Vogue_Italia
- Vogue, "Made in Italy: Meet the Makers" (via NewsBreak): https://www.newsbreak.com/vogue-magazine-519233/4898399949104-made-in-italy-meet-the-makers
- Hola, Adriana Lima no Vogue World: https://www.hola.com/us/celebrities/20260923925102/adriana-lima-latest-appearance-has-fans-comparing-her-early-2000s-look/
- FashionUnited, posição de Bertelli sobre IA e artesãos: https://fashionunited.com/news/people/lorenzo-bertelli-prada-thanks-to-ai-we-will-finally-be-able-to-value-people-who-work-with-their-hands/2025122369753








