Por Katarina Reis Teixeira
Protocolo de Extermínio não inventa nada, e é exatamente por isso que funciona.
Estive na cabine de imprensa do filme Protocolo de Extermínio, Onslaught, dirigido por Adam Wingard, e uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi a maneira como a produção recupera elementos bastante conhecidos do cinema de terror, suspense e ação das décadas de 1980 e 1990, mas os apresenta dentro de uma produção contemporânea.
O filme chega aos cinemas brasileiros em 1º de outubro, com distribuição da Diamond Films e produção da A24. Acompanha Celeste, uma ex-sniper do Exército e mãe que se vê envolvida em uma situação relacionada a uma organização secreta e a soldados geneticamente modificados. (Diamond Films Brasil) A narrativa começa rapidamente e praticamente não perde tempo para apresentar a ameaça. Em pouco tempo, o espectador já está inserido naquele universo, acompanhando a protagonista enquanto os acontecimentos se desenvolvem.
Essa velocidade contribui para o ritmo do filme, mas também é uma das características que podem incomodar parte do público. Alguns personagens e situações poderiam receber mais tempo de desenvolvimento, principalmente porque determinadas relações e elementos da história são apresentados e logo deixam espaço para o próximo acontecimento. Por outro lado, a duração de aproximadamente 92 minutos faz com que a produção mantenha uma narrativa bastante direta.
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| Poster do Filme, via SinnyAssessória/Diamond Films (escritos removidos) |
Uma protagonista feminina dentro de uma linguagem tradicionalmente masculina
Celeste é interpretada por Adria Arjona, atriz de origem guatemalteca e porto-riquenha conhecida por trabalhos como Andor, Hit Man, Father of the Bride e Pacific Rim: Uprising. No filme, ela ocupa o centro de uma narrativa de ação e terror como uma mulher treinada para o combate e disposta a fazer o que for necessário para proteger a filha.
O que achei interessante na personagem é que sua força não depende de uma tentativa de transformá-la em uma versão feminina de um protagonista masculino. Ela continua sendo apresentada como mulher e como mãe, com conflitos pessoais e limitações próprias. Também não é construída como uma mãe perfeita. Existem problemas na relação dela com as pessoas ao redor, mas, quando a filha está em perigo, sua reação é bastante objetiva.
Essa construção me fez lembrar personagens femininas que marcaram o cinema de ação e terror de outras décadas, como Ellen Ripley, de Alien, e Alice, de Resident Evil. São personagens que conseguem ocupar uma narrativa fisicamente intensa sem que a força seja necessariamente apresentada como a única característica que as define.
No caso de Celeste, existe ainda a presença latina de Adria Arjona, sem que o filme transforme isso em um elemento obrigatório da narrativa. A personagem não precisa justificar sua presença como protagonista por meio de sua origem. Ela simplesmente ocupa aquele espaço, e isso também contribui para uma representação feminina que não parece construída a partir de uma única característica.
A própria Arjona já falou sobre o cuidado de não interpretar uma mulher forte simplesmente reproduzindo comportamentos masculinos, mas encontrar uma forma própria de força para a personagem. (HipLatina)
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| Imagem do Filme Protocolo de Extermínio, via SinnyAssessória/Diamond Films |
A relação entre mãe e filha
A dinâmica entre Celeste e a filha é outro ponto que ajuda a equilibrar a personagem.
As duas têm personalidades bastante diferentes. Celeste é mais impulsiva e marcada pela experiência, enquanto a filha tem uma personalidade mais delicada, engraçada e, em determinados momentos, até mais responsável do que a mãe.
Essa diferença cria momentos de humor e também ajuda a apresentar um lado mais humano da protagonista. A menina não funciona apenas como alguém que precisa ser protegida durante a história. Ela possui personalidade e participa da relação entre as duas.
É uma combinação interessante porque o filme alterna uma protagonista bastante física, envolvida em situações violentas, com uma personagem infantil que traz uma dinâmica mais leve para a narrativa.
Uma construção que remete aos thrillers de outras décadas
Embora a estética tenha uma influência bastante evidente dos anos 1980, eu não classificaria a produção simplesmente como um filme oitentista. Ele utiliza referências daquele período dentro de uma estrutura contemporânea.
A produção trabalha com elementos recorrentes do thriller americano: organizações secretas, conspirações, experimentos, perseguições e personagens que parecem saber mais do que revelam. Também há referências ao cinema de terror e ação que ajudaram a construir esse tipo de narrativa.
É possível reconhecer algumas dessas influências durante a sessão, inclusive referências a filmes como Massacre da Serra Elétrica, Halloween e O Exterminador do Futuro. Parte da crítica americana apontou justamente essa característica como uma limitação, considerando que o filme depende demais de referências já vistas. (Los Angeles Times)
Essa é uma observação que considero válida. Ao mesmo tempo, não acho que o filme tente esconder essas influências. Ele parece bastante consciente de que está trabalhando com uma linguagem que já existe.
O resultado é uma produção que não apresenta uma história completamente inédita, mas procura trabalhar com elementos familiares de uma maneira atualizada.
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| Imagem do Filme Protocolo de Extermínio, via SinnyAssessória/Diamond Films |
A câmera e a sensação de estar dentro da cena
A direção também utiliza diferentes perspectivas para aumentar a sensação de imersão. Em algumas sequências, principalmente aquelas envolvendo atiradores, a câmera assume posições que colocam o espectador muito próximo da perspectiva dos personagens.
Esse recurso funciona especialmente bem nas cenas de tensão porque altera a relação do público com aquilo que está acontecendo. Em vez de simplesmente acompanhar a ação de fora, em determinados momentos temos a sensação de estar observando a situação do ponto de vista de quem está envolvido nela.
A fotografia acompanha essa proposta sem utilizar uma estética excessivamente escura durante todo o filme. Há contraste suficiente para destacar sangue, impactos, explosões e outros elementos da ação.
A imagem também mantém uma relação interessante com a própria natureza do filme. Existe uma tentativa de produzir uma sensação física e realista dentro de uma história evidentemente construída e exagerada. Os acontecimentos são claramente cinematográficos, mas a direção utiliza câmera, montagem, fotografia e efeitos para fazer com que o espectador aceite aquela realidade enquanto a cena está acontecendo.
O som é um dos elementos mais importantes
Para mim, o trabalho de som foi um dos pontos mais interessantes da produção.
A trilha utiliza sintetizadores e elementos eletrônicos que remetem ao cinema de gênero dos anos 1980 e também trazem uma atmosfera que pode lembrar uma estética cyberpunk. Em alguns momentos, a sonoridade me trouxe uma sensação semelhante à que tenho com Fallout, não por existir uma relação direta entre as duas obras, mas pela combinação de música eletrônica e ambientação.
Além da trilha, o desenho de som participa diretamente da narrativa.
Um exemplo que me chamou atenção acontece quando um personagem está utilizando fones de ouvido. A transição entre aquilo que ele está ouvindo e o ambiente externo modifica completamente a atmosfera da cena. É uma mudança simples, mas que mostra como o som pode alterar a percepção de uma mesma situação.
Esse trabalho também é importante para o suspense. O filme utiliza ruídos, silêncios e mudanças de intensidade para preparar o espectador para determinados acontecimentos. Em algumas cenas, é possível perceber que alguma coisa vai acontecer antes que ela efetivamente aconteça.
Isso não impede que o susto funcione. O suspense, nesse caso, está menos relacionado à surpresa absoluta e mais à expectativa criada antes do acontecimento.
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| Imagem do Filme Protocolo de Extermínio, via SinnyAssessória/Diamond Films |
Entre o terror e o thriller
Apesar de apresentar elementos de terror bastante claros, o longa também circula pelo thriller de ação.
Existe bastante sangue e violência gráfica, além de nudez e outras situações que fazem com que o filme definitivamente não seja uma produção familiar. A classificação americana é R, principalmente em razão da violência, do gore, do conteúdo sexual e da linguagem. (Keeping It Reel)
A violência também é utilizada de maneira bastante explícita em determinados momentos, mas não ocupa todo o filme. Isso permite que a narrativa alterne entre sequências mais intensas e outras dedicadas aos personagens.
O humor negro também desempenha um papel importante nesse equilíbrio. Algumas falas e cortes aparecem justamente quando uma situação está chegando a um nível elevado de tensão, criando uma quebra que permite ao espectador reagir de outra maneira ao que está acontecendo.
Essa alternância entre suspense, violência, humor e momentos mais leves com a filha impede que o filme permaneça em uma única tonalidade durante toda a sua duração.
Os atores e as referências que carregam
O elenco reúne atores com trajetórias bastante diferentes.
Drew Starkey, conhecido pelo personagem Rafe em Outer Banks, assume uma função mais sombria e imprevisível. Michael Biehn também está no elenco, trazendo uma relação bastante direta com o cinema de ação e ficção científica, especialmente por sua participação em O Exterminador do Futuro.
Há ainda Alex Pereira, o brasileiro conhecido como Poatan, fazendo sua estreia no cinema como The Butcher. (Diamond Films Brasil)
A presença de Pereira acrescenta um elemento interessante para o público brasileiro, principalmente porque ele chega a uma produção internacional vindo de uma carreira completamente diferente. A escolha também parece conversar com a própria proposta do elenco, que reúne nomes capazes de alcançar públicos diferentes.
Essa mistura aparece também em outros integrantes do elenco e ajuda a aproximar o filme de pessoas que talvez não tenham necessariamente o terror como gênero principal de interesse.
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| Imagem do Filme Protocolo de Extermínio, via SinnyAssessória/Diamond Films |
Algumas escolhas são bastante caricatas
Se existe um aspecto que me causou um certo estranhamento, é a maneira como algumas nacionalidades e características culturais são utilizadas para estabelecer determinados personagens como ameaçadores.
A representação de personagens alemães ligados à organização secreta, por exemplo, utiliza elementos que podem soar caricatos, principalmente quando nacionalidade, comportamento excêntrico, drogas, música eletrônica e violência aparecem associados dentro da construção desses personagens.
É uma escolha que lembra uma tradição antiga do cinema americano, que muitas vezes utilizou determinadas nacionalidades como representação quase automática de ameaça. Dentro da linguagem exagerada do filme, essa construção acaba funcionando para estabelecer rapidamente quem são os personagens, mas ainda assim é um recurso que poderia ter sido trabalhado de maneira menos generalizada.
O que a crítica americana apontou
A recepção do filme nos Estados Unidos foi dividida. No Rotten Tomatoes, a produção aparece atualmente com aproximadamente 60% de aprovação entre os críticos e 61% entre o público verificado. (Rotten Tomatoes)
Entre as críticas negativas, aparecem principalmente comentários sobre a previsibilidade da história, o excesso de referências a filmes anteriores e a falta de desenvolvimento de alguns personagens.
O Los Angeles Times, por exemplo, considerou o filme visualmente estiloso e violento, mas criticou justamente seu caráter genérico. (Los Angeles Times) O RogerEbert.com também apontou a dependência de fórmulas conhecidas do cinema de ação e terror. (Roger Ebert)
Por outro lado, outras análises destacaram justamente os elementos que considero mais interessantes na produção: a presença de Adria Arjona como protagonista, o humor, a atmosfera, a violência gráfica e principalmente a trilha e o desenho de som. (The HoloFiles)
Essa diferença de percepção é interessante porque alguns dos elementos apontados como limitações são também parte da proposta do filme. Para quem espera uma narrativa mais complexa e um desenvolvimento maior dos personagens, a velocidade pode ser um problema. Para quem entra na sessão buscando um thriller de ação com influência do cinema de gênero das décadas anteriores, a mesma característica pode funcionar a favor da experiência.
Um filme que deixa espaço para continuar
A rapidez da narrativa também faz com que alguns personagens pareçam menos desenvolvidos do que poderiam. Há relações e elementos da conspiração que poderiam ter recebido mais atenção, principalmente porque o universo apresentado pelo filme permite diferentes possibilidades.
Ao mesmo tempo, isso deixa espaço para uma possível continuação. A produção estabelece uma estrutura que não precisa necessariamente terminar junto com os créditos finais, e algumas das perguntas que permanecem abertas podem ser exploradas posteriormente.
No fim, o longa não é um filme que eu colocaria na categoria de produção perfeita ou de grande reinvenção do gênero. Existem problemas de ritmo, personagens que poderiam ter maior profundidade e escolhas que dependem bastante de referências anteriores.
Mas também seria injusto reduzir o longa apenas a isso.
O filme tem uma protagonista que funciona dentro da proposta, uma relação interessante entre mãe e filha, um elenco que reúne diferentes públicos, referências ao cinema de ação e terror de outras décadas, humor negro e uma construção sonora que, para mim, é um dos seus maiores acertos.
A experiência também é bastante específica. Não é um filme familiar e provavelmente não é uma escolha para quem procura uma produção leve para assistir em qualquer ocasião. É um longa voltado principalmente para quem já tem alguma afinidade com terror, suspense, ação e ficção científica.
Para esse público, a previsibilidade de algumas situações não necessariamente elimina o interesse. O filme consegue criar tensão mesmo quando o espectador percebe antecipadamente que alguma coisa está prestes a acontecer, principalmente porque a sonorização e os planos de câmera conduzem essa expectativa.
Protocolo de Extermínio não precisa ser visto como uma reinvenção do cinema de terror para funcionar. Ele é, antes de tudo, uma produção contemporânea que resgata uma linguagem já conhecida do gênero e a atualiza com um elenco heterogêneo, humor no meio do caos, violência explícita e uma trilha sonora que dá identidade a tudo isso.
E é justamente nessa combinação entre referências conhecidas e escolhas próprias que o filme encontra seu espaço.
Referências
- Diamond Films Brasil — Protocolo de Extermínio: informações oficiais sobre o filme, direção, produção, elenco e estreia no Brasil. (Diamond Films Brasil)
- HipLatina — Adria Arjona Refuses to Be Limited by Hollywood’s Idea of a Latina Actress: entrevista com Adria Arjona sobre Celeste e a construção da personagem. (HipLatina)
- Los Angeles Times — Onslaught review: crítica de Katie Walsh sobre o filme e suas referências ao cinema de gênero. (Los Angeles Times)
- Keeping It Reel — Onslaught (2026) review:informações sobre duração, classificação americana e avaliação crítica. (Keeping It Reel)
- Rotten Tomatoes — Onslaught: índice de aprovação da crítica e do público. (Rotten Tomatoes)
- RogerEbert.com — Onslaught, por Simon Abrams: crítica sobre a utilização de fórmulas e referências do cinema de ação, terror e ficção científica. (Letterboxd)
- The HoloFiles — Onslaught review: análise da direção, das influências de John Carpenter e da trilha eletrônica. (The HoloFiles)





