Por Katarina Reis Teixeira
Giulia Benite, Pedro Burgarelli e Thiago Calçado falam sobre dublagem e animação
Durante a cabine de imprensa de O Bosque Selvagem, realizada a convite da Imagem Filmes, tivemos a oportunidade de conversar com Giulia Benite, dubladora de Prue, Pedro Burgarelli, responsável pela voz de Curtis, e Thiago Calçado, animador de stop-motion que participou da produção. A conversa abordou a experiência de assistir ao filme finalizado, os desafios da dublagem brasileira e o processo de construção das cenas, além das reações dos profissionais ao reencontrarem o próprio trabalho na tela grande.
Como é ver o filme finalizado?
Giulia Benite: “Foi a minha primeira dublagem e, além de ser uma emoção na hora de assistir, eu estava muito nervosa, não sabia se estava fazendo certo ou errado. Pelo que eu consegui assistir, estava muito emocionada. É sempre uma emoção ver no telão.”
A atriz também comentou, durante a conversa, sobre a expectativa de contribuir para uma produção que já tinha sido construída por toda uma equipe:
Giulia Benite: “Eu espero que eu tenha feito um bom trabalho pra, né, contribuir com o que eles já fizeram.”
Como é assistir ao seu trabalho e ver a sua participação no filme?
Pedro Burgarelli: “Gosto muito de ver como o stop-motion entrega cada detalhe, e estar aqui assistindo é incrível. Como foi com Pinóquio.”
Ao falar sobre a construção de Curtis, Pedro acrescentou:
Pedro Burgarelli: “Quem é o Curtis e também colocar um pouquinho de mim ali…”
O ator também compartilhou sua reação ao universo da animação:
Pedro Burgarelli: “E esse negócio de ser folclore, épico, aventura, o bosque todo, eu ficava só admirando, né? Ficava vendo aquilo falando: ‘Caraca, mano, eu tô no meio disso daqui’, meio que. Mas acho que é isso. Foi, foi muito mais de admirar assim, ver isso e poder colocar, deixar um pouco de mim nesse trabalho também.”
Como foi ver suas animações na tela?
Thiago Calçado: “Bom, é, eu sou animador, né? Animador stop-motion, e aí eu vi algumas das minhas cenas ali.”
O animador explicou que nem sempre conseguia reconhecer todos os trechos em que havia trabalhado:
Thiago Calçado: “Algumas eu… é, tem cenas muito curtas também que eu: ‘Será que eu fiz essa? Não lembro’, porque eu… é, a gente faz várias, né?”
Ele também comentou sobre a dinâmica de trabalho durante a produção:
Thiago Calçado: “E às vezes picado assim, às vezes, no meio da produção falam: ‘Thiago, preciso de alguém numa outra sequência’. Eu pulo de sequência.”
A explicação ajuda a compreender como a participação de um animador pode estar distribuída por diferentes momentos do filme, sem necessariamente corresponder a uma única cena longa.
Como funciona o processo de animação?
Thiago Calçado: “Blocking, que é uma cena com menos quadros por segundo, vamos dizer quatro frames por segundo, eu só faço 12 chaves. Depois a gente vai pra um ensaio, que a gente faz a 12 quadros por segundo, e depois a gente vai pra cena final, que são 24 quadros por segundo.”
Ele também explicou como as cenas evoluem ao longo das etapas:
Thiago Calçado: “Em cada parte desse processo, a gente vai conversando com o diretor de animação, com o animador, que vai evoluindo a cena.”
O relato mostra que a animação não surge pronta. Cada sequência passa por etapas de desenvolvimento e revisão até alcançar o resultado que o público vê na tela.
Como é adaptar a interpretação para a dublagem brasileira?
Giulia Benite: “Não nasci perto, nem perto da mata, mas eu acho que, como ele falou também, a gente chega e a pessoa que tá dirigindo, né, ela dá umas direções, ela contextualiza um pouco a gente da história, de como vai ser tudo.”
Sobre o contato com a versão original, ela acrescentou:
Giulia Benite: “A gente também vai escutando um pouquinho da dublagem em inglês.”
E explicou o que considera um dos desafios mais interessantes da experiência:
Giulia Benite: “Mas, mesmo assim, eu acho muito diferente, né? Eu acho que em português a gente tem outras emoções, existe outra forma de me achar, eu acho que é um grande desafio e essa é uma das partes mais legais assim pra mim, de realmente me desafiar, entender até onde eu consigo, o que que eu consigo fazer e me descobrindo assim no meio do caminho.”
A fala evidencia que a dublagem envolve mais do que reproduzir uma interpretação em outro idioma. Há também um processo de descoberta, adaptação e construção emocional por parte dos atores.
Qual foi a cena mais desafiadora da dublagem?
Pedro Burgarelli: O ator apontou a cena do café, no início do filme, e as cenas do final com a arma na mão.
Giulia Benite: A atriz destacou a primeira cena, por ter sido sua estreia na dublagem.
A resposta se relaciona ao nervosismo que Giulia relatou ao falar sobre sua primeira experiência com dublagem e a expectativa de ver o resultado final no cinema.
Como é rever uma cena depois de tanto tempo trabalhando nela?
Durante a conversa, também surgiu a lembrança de uma cena que teria sido aplaudida em uma apresentação anterior, além de comentários sobre a preparação das sequências e a reação do público.
Giulia Benite: “Acho essa parte muito interessante, assim. Pra mim foi uma…”
Thiago Calçado: “Dessa cena que eu lembro, dessa cena ser aplaudida lá no dia que a gente mostra. Eu lembro da gente se atuando, se filmando pra fazer de referência pra cenas.”
Giulia Benite: “Então fica esse… ver a reação dos próprios amigos, de quem a gente ama e do público no geral também.”
Pedro Burgarelli: “Não, claro, com certeza. Quando a gente faz alguma coisa assim na vida, né, mas todos os técnicos nas listas têm que assistir o filme ou alguma coisa assim. E uma coisa que a gente do teatro acha muito ruim é isso, que a gente não consegue assistir o que a gente tá fazendo, sabe? É até bom quando é criança, que tem mais um elenco, que aí cê pode revezar. Aí você vê o outro fazendo e vê a peça completa. E acho muito interessante.”
Em seguida, Pedro fez uma observação bem-humorada sobre a experiência de apresentar um trabalho e esperar pela reação da plateia:
Pedro Burgarelli: “Mas é isso, é sempre… Vou contar uma piada e esperar cinco anos pras pessoas rirem.”
Thiago Calçado: “É muito legal ver a reação da galera hoje aqui. E rindo de cenas que eu acho que eu vi tantas vezes lá que eu achava bem mais engraçado. ‘Nossa, essa cena realmente é engraçada’, e a galera riu e eu não lembrava que era engraçado.”
Giulia Benite: “Exato, porque às vezes a gente faz e a gente não sabe se só a gente tá achando a coisa legal, né?”
Thiago Calçado: “É muito legal ver a reação.”
Uma perspectiva sobre o trabalho coletivo
A conversa durante a cabine de imprensa permitiu conhecer diferentes perspectivas sobre a criação de O Bosque Selvagem. Enquanto Giulia Benite falou sobre o desafio de estrear na dublagem e descobrir novas possibilidades de interpretação, Pedro Burgarelli comentou a construção de Curtis e sua admiração pelos detalhes do universo visual da animação. Thiago Calçado, por sua vez, explicou parte do processo técnico envolvido na produção das cenas em stop-motion e compartilhou a experiência de reencontrar o próprio trabalho diante do público.
Os depoimentos revelam aspectos diferentes de uma mesma produção: a interpretação dos atores, o desenvolvimento quadro a quadro e a expectativa de ver o resultado final ganhar vida na tela grande.


