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CINEMA

Papaya: Animação que Descobre, Pertence e Solta Raízes

Por Katarina Reis Teixeira A ssisti a Papaya antecipadamente em uma cabine de imprensa, antes da estreia do filme nos cinemas brasileiro...

Papaya: Animação que Descobre, Pertence e Solta Raízes


Por Katarina Reis Teixeira


Assisti a Papaya antecipadamente em uma cabine de imprensa, antes da estreia do filme nos cinemas brasileiros, marcada para 24 de setembro de 2026. Dirigido por Priscilla Kellen, o longa acompanha uma pequena semente de mamão que nasce com uma curiosidade diferente em relação ao mundo ao seu redor. Enquanto outras sementes seguem um caminho mais previsível, Papaya demonstra vontade de conhecer o que existe além do lugar onde nasceu. Segundo a sinopse oficial, apaixonada pela ideia de voar, ela precisa continuar em movimento para evitar criar raízes, e é no caminho que descobre a força delas.

Foto via Print do Trailer de Papaya

Com 74 minutos de duração, o filme é uma animação brasileira voltada ao público infantil e familiar, com classificação indicativa de 10 anos. A narrativa não utiliza diálogos e é conduzida pela combinação entre imagem, movimento, som e música. A produção é da Boulevard Filmes, em coprodução com Birdo Studio, Priscilla Kellen e Alê Abreu, e a distribuição fica com a Cajuína Audiovisual e a Sessão Vitrine Petrobras, segundo o material de divulgação.


A partir dessa premissa simples, Papaya constrói uma história que pode ser observada por diferentes perspectivas. Para mim, uma das questões que aparecem com mais força é a relação entre liberdade, descoberta e pertencimento.


Sete anos de construção


O desenvolvimento de Papaya levou cerca de sete anos, do desenvolvimento à conclusão. Uma parte importante desse período foi dedicada à construção da linguagem visual e narrativa do longa, com uma longa etapa de animatic, a "prévia" do filme em vídeo, em que cenas, ambientações sonoras e movimentos foram construídos com cuidado para evitar o didatismo.


A animação utiliza uma linguagem 2D de caráter gráfico, com formas geométricas, blocos de cor, colagens e texturas. Entre as referências visuais estão os grafismos latino-americanos e os recortes de papel de Henri Matisse, e a própria diretora passou a definir esse estilo, ao longo da produção, como "tropicalismo pós-apocalíptico", segundo o material de divulgação. Kellen também realizou pesquisas sobre desenvolvimento infantil, microbiologia do solo, poesia e diferentes tradições artísticas durante o processo de criação, segundo Sheilla Martins.


A animação foi realizada pela Birdo Studio, com supervisão artística de Alê Abreu. Priscilla Kellen assina a direção, a direção de arte e o roteiro. A montagem é de Elaine Steola. O desenho de som, a edição e a mixagem foram realizados pelo Submarino Fantástico, e a trilha sonora original é de Talita Del Collado.


O tempo de produção é relevante porque a linguagem visual não funciona apenas como acabamento estético. Ela participa diretamente da maneira como o espectador conhece o universo da personagem.


Priscilla Kellen e a estreia na direção de longa


Papaya é o primeiro longa-metragem dirigido por Priscilla Kellen. Formada em Design Gráfico pela Unesp, ela possui experiência em cinema, televisão, ilustração e animação.


Antes do longa, Kellen trabalhou com design e ilustração e participou de projetos de Alê Abreu. Em Garoto Cósmico (2007), atuou como assistente de animação. Em O Menino e o Mundo (2013), filme indicado ao Oscar de Melhor Animação, trabalhou como coordenadora artística e assistente de direção. Também dirigiu a série infantil Vivi Viravento, de 2017, segundo o material de divulgação.


A experiência anterior ajuda a contextualizar a escolha de uma narrativa em que a construção visual tem tanto espaço quanto a própria história.


Uma animação sem diálogos


Uma das características mais particulares de Papaya é a ausência de diálogos.


Isso faz com que a comunicação aconteça principalmente por meio das imagens, dos movimentos, dos sons e da música. O espectador precisa observar o ambiente e acompanhar as mudanças da personagem sem depender de explicações verbais.


A escolha também interfere no ritmo do filme. Em vez de apresentar informações por meio de conversas entre personagens, a narrativa permite que o ambiente tenha uma participação maior.


Durante a sessão, percebi que essa característica exige uma atenção diferente daquela necessária em uma animação baseada em diálogos. É preciso observar mais os detalhes visuais e sonoros para acompanhar o que está sendo construído.


O som como parte da narrativa


O trabalho sonoro ocupa um espaço importante justamente porque não existe uma camada de diálogos conduzindo a história.


O desenho de som do Submarino Fantástico utiliza elementos da natureza, como água, pássaros, insetos e vento, para construir os diferentes ambientes. Segundo a equipe, a intenção era permitir que o espectador conhecesse aquele universo também pela percepção sonora, de acordo com o View of the Arts.


A trilha sonora original é de Talita Del Collado, integrante do Trio Manaflor. Segundo a diretora, a compositora criou a partitura de forma artesanal, ao longo de vários meses, partindo de elementos inspirados nos sons da natureza. Deles nasceram os temas principais, influenciados pela música popular brasileira de diferentes regiões, segundo o press kit internacional do filme.


Na minha percepção, essa combinação contribui bastante para a sensação de identidade brasileira do filme. Alguns momentos me remeteram a sonoridades populares que associo a diferentes regiões do país, especialmente a referências que reconheço na música nordestina e em outras formas da música brasileira. É uma leitura minha: os materiais oficiais não detalham gêneros nem instrumentos.


No elenco, Aretha Garcia dá voz à Papaya, e Tulipa Ruiz dá voz à mãe-mamoeiro. Tulipa também canta a canção final, "Borboleta", composta por seu pai, Luiz Chagas, e produzida por seu irmão, Gustavo Chagas. Maria Vitória Garcia também integra o elenco. A direção de voz é de Melissa Garcia.


Uma identidade brasileira construída pelas imagens


A identidade brasileira de Papaya também aparece na própria construção visual.


As cores, os ambientes naturais, os animais, a presença da vegetação e as referências gráficas contribuem para formar um universo que reconheci como brasileiro sem que o filme precise explicar isso diretamente.


Essa percepção também me fez pensar na diversidade cultural do país. A sinopse divulgada internacionalmente situa a história na floresta amazônica, e algumas escolhas visuais e musicais me remeteram particularmente a referências que associo ao Norte e ao Nordeste brasileiro.


Não considero que o filme esteja tentando representar uma única região. Minha leitura é mais ampla: diferentes referências brasileiras parecem se encontrar dentro da mesma linguagem visual.


Entre descoberta e pertencimento


A premissa de Papaya permite uma leitura que vai além da própria personagem.


A ideia de uma semente que sonha em voar e não quer se prender ao mesmo lugar cria uma relação interessante com temas como descoberta, liberdade e pertencimento. No filme, é ao descobrir a força das raízes que ela transforma o mundo ao seu redor, segundo a sinopse. A vontade de conhecer o mundo pode coexistir com a necessidade de entender a própria origem.


Foi uma das coisas que mais me chamou atenção durante a sessão, porque a questão pode ser transportada para experiências humanas bastante comuns.


Mudar de cidade, sair do país, conhecer outras culturas ou simplesmente passar por diferentes fases da vida não significa necessariamente abandonar aquilo que formou uma pessoa. Ao mesmo tempo, permanecer ligado à própria origem não precisa significar deixar de experimentar outras possibilidades.


Essa é uma interpretação pessoal que o filme me provocou, e não uma tentativa de definir uma única mensagem para a história.


Uma animação para públicos diferentes


Embora Papaya seja classificado como animação infantil e familiar, acredito que a experiência pode variar bastante de acordo com a idade de quem assiste.


Para as crianças, existe uma personagem visualmente expressiva, uma natureza cheia de elementos e uma narrativa que não depende de diálogos. A própria diretora afirma que a narrativa foi pensada para respeitar a capacidade de interpretação da criança, sem entregar tudo pronto. Para adultos, há espaço para perceber questões relacionadas à liberdade, identidade, origem e pertencimento.


A linguagem também exige um pouco de disponibilidade do espectador. O filme não trabalha o tempo inteiro com mudanças rápidas ou com uma sucessão constante de acontecimentos. Em alguns momentos, senti que o ritmo poderia ser mais enxuto, especialmente para um público acostumado a conteúdos audiovisuais muito acelerados.


Ao mesmo tempo, a escolha por um ritmo mais contemplativo está relacionada à própria proposta de construir a narrativa por imagens, sons e movimentos.


Papaya tem uma estrutura simples de acompanhar, mas, justamente por não ter falas, só entra no ritmo de verdade a partir do meio. Por isso, acho que funciona melhor para quem está disposto a se entregar à proposta e se interessa por animação e pelo lado artístico do cinema. Para quem tem pressa de chegar ao desfecho, pode pedir mais paciência.

Foto via Print do Trailer de Papaya


O que Papaya me fez pensar


Minha leitura de Papaya ficou principalmente relacionada à ideia de que conhecer outros lugares e experiências pode fazer parte da construção da própria identidade.


A personagem parte de uma premissa muito simples: uma pequena semente que sonha em voar e quer conhecer mais do que aquilo que está imediatamente ao seu redor. A partir dessa ideia, o filme abre espaço para pensar sobre como lidamos com aquilo que recebemos de nossa origem e com aquilo que encontramos fora dela.


Para mim, essa questão também se relaciona com a experiência de viver entre lugares, culturas e referências diferentes. É possível mudar, conhecer outras realidades e construir novas relações sem necessariamente deixar de carregar a própria história.


Papaya chega aos cinemas brasileiros em 24 de setembro de 2026, com distribuição da Cajuína Audiovisual e da Sessão Vitrine Petrobras. O longa teve sua primeira exibição no Festival de Brasília, em setembro de 2025, na mostra Festivalzinho, e passou depois por outros festivais brasileiros e internacionais. Foi o primeiro longa de animação do país a integrar a competitiva Generation KPlus, no Festival de Berlim de 2026, e já tem distribuição comercial garantida em 11 países, segundo o material de divulgação.


Depois da cabine, fiquei com uma pergunta que, para mim: até onde podemos ir para conhecer o mundo sem perder a relação com aquilo que nos formou?





Ficha técnica
Papaya | Brasil | Animação | 74 min | 10 anos
Direção, roteiro e direção de arte: Priscilla Kellen
Supervisão artística: Alê Abreu
Montagem: Elaine Steola
Desenho de som, edição e mixagem: Submarino Fantástico
Trilha sonora: Talita Del Collado
Direção de voz: Melissa Garcia
Elenco: Aretha Garcia, Tulipa Ruiz, Maria Vitória Garcia
Produção: Boulevard Filmes | Coprodução: Birdo Studio, Alê Abreu, Priscilla Kellen
Distribuição: Cajuína Audiovisual e Sessão Vitrine Petrobras
Estreia: 24 de setembro de 2026