Por Katarina Reis Teixeira
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| Carandaí 25 na Casa Higienópolis, em 18/09 via @carandai25 |
Brasil No Quintal de Casa
Esta foi a segunda vez que fui ao Carandaí 25 e, desta vez, fiquei pensando um pouco mais sobre a proposta do evento e sobre o espaço que ele ocupa dentro da moda brasileira. A primeira vez que conheci o Carandaí, inclusive, foi quase por acaso, pelo Instagram. Eu não sabia que o evento existia e acabei descobrindo justamente por acompanhar conteúdos relacionados à moda. Na edição de março, participei de outras atividades da programação; desta vez, fui como público, por conta própria, apenas ao desfile e saí logo depois.
O Carandaí 25 foi criado por Tati Accioli e começou em 2012, reunindo inicialmente marcas autorais em um ambiente bem menor. Ao longo dos anos, o projeto cresceu e passou a reunir moda, design, cultura, gastronomia, música e outros segmentos da economia criativa. A plataforma também passou por diferentes cidades e, segundo a própria organização, já reuniu mais de mil marcas ao longo de sua trajetória. Em comunicado da organização, Tati Accioli afirma que a edição de março mostrou o quanto São Paulo abraçou o evento e que o propósito segue sendo “impulsionar marcas independentes e valorizar o feito no Brasil”.
Em São Paulo, o evento acontece na Casa Higienópolis e tem uma estrutura que, apesar de não ser gigantesca, é muito bem pensada. Esta foi a terceira edição na cidade. A edição de setembro de 2026 reuniu mais de 80 marcas e teve uma programação de três dias, com desfiles, oficinas, conversas, música e gastronomia. A entrada também foi aberta ao público mediante a doação de alimentos, o que faz com que o evento tenha essa característica de ação solidária junto à programação de moda.
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| Casa Higienópolis durante o Carandaí 25, via @carandai25 |
Uma das coisas que mais gosto no Carandaí é justamente essa possibilidade de participar sem que você necessariamente precise estar dentro daquele circuito mais fechado da moda. É claro que existem convidados, imprensa, profissionais do setor e pessoas que têm lugares específicos nos desfiles, e eu não vejo problema nisso. Um evento desse tamanho precisa ter critérios e uma organização para acomodar diferentes públicos.
O que acho interessante é que, ao mesmo tempo, existe a possibilidade de uma pessoa que simplesmente descobriu o evento participar da experiência. Pela proposta do evento, você pode entrar, conhecer as marcas, assistir à programação, participar de uma oficina ou de alguma atividade e circular pelo espaço sem necessariamente precisar comprar alguma coisa para justificar a sua presença. E isso é importante porque, muitas vezes, eventos de moda acabam sendo muito voltados para quem já está inserido naquele meio.
No Carandaí, existe uma experiência comercial, obviamente. As marcas estão ali para apresentar e vender seus produtos. Mas você não precisa necessariamente consumir para participar do evento. Essa diferença, para mim, é interessante.
A estrutura também me passa uma sensação um pouco diferente do que normalmente esperamos de um evento brasileiro desse tipo. Existe uma organização que me lembra alguns formatos de eventos que já vi na Europa, principalmente pela maneira como o público pode circular, descobrir marcas e participar de uma programação sem que tudo esteja condicionado a uma lista extremamente restrita.
Ao mesmo tempo, acho que existe uma contradição interessante na forma como os desfiles são organizados. Como eles são abertos ao público, existe uma quantidade de cadeiras destinada a convidados e pessoas que têm prioridade. Quando essas cadeiras não são ocupadas, outras pessoas vão sendo colocadas ali. Eu entendo completamente a lógica disso, mas acredito que essa dinâmica poderia ser mais bem estruturada para o público entender de maneira mais clara como funciona. Se o evento se apresenta como aberto, a estrutura precisa estar preparada para receber esse público, com mais cadeiras, e não só os convidados. Não sei quem é o responsável por essa parte, mas é um ponto que merece atenção.
Na hora do desfile, acaba existindo aquela movimentação de pessoas entrando, procurando lugar, esperando para saber onde podem sentar e a organização tentando acomodar todo mundo. Também existe atraso, como acontece em muitos desfiles. Não acho que seja algo exclusivo do Carandaí e nem considero que seja necessariamente um grande problema, porque quem acompanha eventos de moda sabe que esse tipo de situação acontece com frequência. Mas é um ponto que poderia ser melhor organizado justamente porque o evento tem uma proposta muito boa de aproximar o público da moda.
Na edição de março, a minha experiência nas outras atividades foi diferente, e vale dizer que não fui com o objetivo de olhar as marcas com calma. Achei tudo mais parado, alguns pontos da casa estavam muito quentes e tive a sensação de que o espaço estava reservado a um grupo selecionado, já que, pelo que sei, a organização distribui convites às pessoas que quer presentes. É uma impressão minha, e não uma regra que eu consiga confirmar, mas foi o que senti. Houve também um pequeno descuido: minha blusa branca ficou toda suja porque um dos pufes colocados no chão não estava limpo. Talvez por isso, nesta edição, tenha ficado só no desfile, que foi a parte de que mais gostei.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a quantidade de marcas autorais e mais nichadas que aparecem no evento. Ter marcas autorais brasileiras com esse nível de qualidade e de estrutura é, para mim, um dos grandes méritos do Carandaí.
São marcas que, muitas vezes, têm um preço mais alto e provavelmente não fazem parte do consumo cotidiano da maioria das pessoas. Mas existe uma razão para isso. Muitas trabalham com uma produção menor, materiais de qualidade, técnicas específicas, desenvolvimento próprio e uma identidade muito definida. Então, mesmo quando uma peça não está dentro da possibilidade de compra de todo mundo, existe valor em poder conhecer aquela produção.
E acho que o Carandaí consegue fazer isso de uma maneira interessante porque coloca essas marcas próximas umas das outras e cria uma situação em que você pode simplesmente descobrir algo novo.
Na edição de março, lembro de uma marca de chapéus artesanais que, pelo que a expositora me explicou, vinha da Amazônia. Ela tinha levado a família toda para trabalhar no espaço. Acho que o evento traz muito dessa dimensão humana, de gente que constrói a própria marca de perto.
Vale destacar também o atendimento. As pessoas da equipe foram sempre muito gentis e educadas, e a estrutura do evento, em geral, segue o que se espera de um evento desse tipo.
Um ponto que me chamou atenção nesta edição foi a montagem dos desfiles. Como as mesmas modelos apresentavam as coleções de todas as marcas, cada apresentação começava com uma placa com o nome do estilista, para que ninguém se confundisse. Achei uma solução prática, mas que deixa uma questão em evidência: se maquiagem e cabelo são os mesmos para todas, a escolha das peças vira a principal ferramenta de cada marca para construir o próprio olhar.
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| desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
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| desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
Nas marcas que mais me chamaram atenção, isso funcionou. A Cru foi a que melhor estruturou a montagem dos looks, e as peças pareciam pensadas para quem as vestia.
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| Cru no desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
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| Cru no desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
A La Vie En Mode apostou numa extravagância bem direta, quase óbvia, e as modelos se apropriaram dela com naturalidade. Há palco para tudo isso.
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| La Vie En Modeno desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
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| La Vie En Modeno desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
Já a Onoma trabalhou com pastéis em tom sobre tom, e a harmonia fez as produções parecerem inteiras.
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| Onoma no desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
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| Onoma no desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira |
Em outras apresentações, senti falta dessa atenção. Na Garnus, as roupas eram bonitas e as modelos, incríveis, mas em alguns looks peça e pessoa pareciam elementos separados, como uma colagem. O elenco era diverso, e isso é um ponto positivo do evento, mas diversidade em cena pede um styling que valorize cada tom de pele. Não sei se por falta de tempo ou de cuidado, nem todas as marcas pareciam ter feito essa escolha.
Talvez isso também explique por que, na comparação com a edição de março, senti as marcas mais contidas, com menos cor e ousadia.
Isso também me fez pensar sobre como a moda brasileira é apresentada para quem está fora desse circuito.
A gente costuma falar muito sobre a moda brasileira associando o país ao artesanato, às cores, às estampas, às referências tropicais e à produção manual. Às vezes parece até que existe uma expectativa de que a moda brasileira precise obrigatoriamente se encaixar nesse imaginário. Mas, ao mesmo tempo, acho que existe uma característica muito interessante quando esses elementos aparecem de maneira natural e contemporânea.
Eu percebi isso bastante no Carandaí e também em experiências que tive na Fashion Week do Rio de Janeiro.
Não fui ainda a uma São Paulo Fashion Week, então não consigo fazer uma comparação direta entre os dois eventos. Mas, nos desfiles que acompanhei no Rio, uma coisa que sempre me chamou atenção foi justamente essa presença muito forte de referências brasileiras. Música brasileira, cores, materiais, elementos artesanais e referências culturais aparecem de maneiras diferentes nas apresentações.
E isso é algo que eu valorizo porque não parece necessariamente uma tentativa de fazer uma moda brasileira parecer estrangeira para ser considerada sofisticada.
Quando penso nas experiências que tive acompanhando desfiles em Lisboa, por exemplo, percebi uma relação diferente com essa questão. Não estou dizendo que a moda portuguesa não tenha identidade própria, porque obviamente tem, mas, na minha experiência, muitas apresentações acabavam dialogando mais com uma estética europeia internacional e menos com elementos que poderiam ser reconhecidos imediatamente como parte da cultura e da história portuguesa.
No Brasil, vejo uma disposição maior para trazer essas referências para dentro da moda. E acho interessante justamente porque não precisamos deixar de lado aquilo que é nosso para produzir algo contemporâneo.
Uma coisa não exclui a outra.
Podemos ter uma peça artesanal, colorida ou inspirada em alguma referência cultural brasileira e, ao mesmo tempo, ter uma construção sofisticada, uma modelagem interessante e uma apresentação que conversa com o mercado internacional.
Para mim, essa é uma das coisas mais interessantes de observar na moda brasileira atualmente.
O Carandaí também tem uma programação que vai além dos desfiles e das marcas. Existem oficinas e outras atividades que permitem uma participação mais ampla do público. Há ainda parcerias com marcas que ajudam a construir essa experiência, além de sorteios e ações ao longo do evento. Nesta edição, marcas como Granado, C6 Bank, e outros parceiros estiveram associadas à realização e à programação. No dia 18 de setembro, a programação divulgada pela organização começou às 11h, com a abertura do festival, seguida de um bate-papo com Ju Ferraz às 12h, uma oficina de perfumaria com a Granado às 15h, o desfile às 17h e o encerramento às 20h. Não participei da oficina nem do bate-papo.
Tudo isso faz com que o evento seja mais do que simplesmente um espaço para comprar roupas e acessórios.
Ainda assim, acho que existe uma questão que poderia ser melhor explorada: a divulgação.
Eu descobri o Carandaí por acaso, e isso me fez pensar que talvez ele ainda esteja muito concentrado dentro da própria bolha da moda. Quem acompanha marcas autorais, influenciadores de moda, eventos e conteúdos relacionados ao setor provavelmente acaba encontrando o evento. Mas uma pessoa que gosta de moda e não está necessariamente acompanhando esse circuito pode simplesmente não saber que ele existe.
E, ao mesmo tempo, acho que seria interessante que mais pessoas conhecessem.
Não necessariamente para transformar o Carandaí em um evento de massa ou fazer com que tudo precise ser extremamente popular. A característica mais interessante dele é justamente conseguir preservar uma seleção de marcas que talvez não tenham tanta visibilidade no mercado mais amplo.
Mas existe uma diferença entre uma coisa ser nichada e uma coisa ser desconhecida.
Eu acho que a moda brasileira tem muitos projetos, marcas e profissionais que ficam restritos a quem já conhece esse universo. E eventos como o Carandaí podem funcionar como uma ponte entre esse mercado e pessoas que estão interessadas em moda, mas ainda não tiveram contato com ele.
Foi isso que senti durante os desfiles que acompanhei.
Apesar de eu normalmente não ser uma pessoa que vai a eventos pensando apenas na parte comercial ou na possibilidade de comprar alguma coisa, eu me senti muito feliz de estar ali. Principalmente porque pude ver de perto marcas e trabalhos que talvez eu não encontrasse em outro contexto.
Também gostei da sensação de estar em um espaço em que a moda não estava tão distante do público. Você conseguia ver as pessoas circulando, conhecer as marcas, acompanhar o desfile e perceber um pouco do que estava sendo produzido naquele momento.
Em uma época de desfiles gigantescos e de tanta exclusividade, o que mais me deixa feliz é ver marcas autorais brasileiras de qualidade sendo reconhecidas, apresentando o próprio trabalho e tentando encontrar o seu cantinho no mundo.
Para mim, esse é um dos maiores méritos do Carandaí 25. Ele apresenta uma parte da moda brasileira que muitas vezes permanece dentro de um circuito mais específico, mas faz isso de uma maneira relativamente aberta. Ainda existem questões de organização que poderiam ser aprimoradas, especialmente na experiência dos desfiles e na maneira de acomodar o público, mas isso não diminui o valor da proposta.
Eu saí dessa segunda experiência pensando que talvez o Carandaí seja justamente um daqueles eventos que merecem ser mais conhecidos por quem gosta de moda, mesmo que não trabalhe com moda e não faça parte desse circuito.
Porque existe muita coisa sendo produzida no Brasil que não aparece necessariamente nas grandes vitrines ou nos eventos que recebem maior atenção. E, quando conseguimos chegar mais perto dessas marcas, fica mais fácil perceber que a moda brasileira é muito maior e mais diversa do que aquilo que normalmente aparece para nós.
O Carandaí me fez olhar novamente para isso e, principalmente, para a maneira como a nossa própria identidade pode estar presente na moda sem precisar ser transformada em uma caricatura do Brasil. As cores, o artesanato, a música, as referências culturais e a produção autoral podem fazer parte de uma moda contemporânea e sofisticada sem que isso deixe de ser brasileiro.
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Cru no desfile de 18/09, Foto: Katarina R.Teixeira
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E acho que poder ver isso de perto é justamente uma das partes mais interessantes da experiência.
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| Público Circulado Pelo Carandaí 25, via @carandai25 |
- Fotos: Katarina R.Teixeira / Pensei Edit. Imagens de terceiros, se houver, são creditadas nas próprias legendas.
- Datas, local, número de marcas, tema "Delírio Coletivo", entrada gratuita com arrecadação de alimentos não perecíveis e apoiadores: comunicado de imprensa da organização do Carandaí 25, publicado por Glamurama, RSVP e VAMM Magazine (setembro de 2026).
- Declaração de Tati Accioli: comunicado de imprensa da organização do Carandaí 25 (setembro de 2026).
- Programação de 18/09: perfil oficial do Carandaí 25 no Instagram (@carandai25).
- Participação da La Vie En Mode:** perfil da marca no Instagram (@lavienmodebr).

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