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ENTRE NOSTALGIA E ADAPTAÇÃO

Por Katarina Reis Teixeira O Filme Entende Mais Sobre O Seu Tempo Do Que O Público Consegue Admitir  Foto via Lanna Apisukh/The New York Ti...

ENTRE NOSTALGIA E ADAPTAÇÃO

Por Katarina Reis Teixeira

O Filme Entende Mais Sobre O Seu Tempo Do Que O Público Consegue Admitir 


Foto via Lanna Apisukh/The New York Times
Existe uma expectativa quase automática quando um filme revisita personagens marcantes depois de tantos anos. Não basta que eles estejam de volta. Existe uma cobrança implícita para que tudo pareça exatamente como antes. E talvez seja aí que começa o desencontro entre este filme e parte do público — algo que veremos nesta continuação de O Diabo Veste Prada.

A proposta aqui não é reconstruir profundamente os personagens, nem apresentar uma continuidade rígida. O tempo passou, e o filme reconhece isso sem transformar essa passagem em um grande conflito. O que ele entrega é um desenvolvimento coerente com o que se espera, sem a necessidade de justificar cada detalhe. Existe uma base sólida, ainda que pouco aprofundada, e isso funciona dentro da proposta.

Em alguns momentos, a narrativa opta por soluções rápidas. O reencontro entre personagens centrais acontece de forma quase imediata, como se o roteiro assumisse que o público não precisa ser convencido, apenas conduzido. Essa agilidade pode parecer uma simplificação, mas também revela clareza de intenção. O foco não está na construção do caminho, mas no impacto do reencontro.

O ponto mais interessante, no entanto, está na sensação que o filme provoca. Não se trata apenas de nostalgia pelos personagens, mas pela própria forma de contar histórias. Há uma estrutura que remete diretamente aos filmes dos anos 2000: narrativas mais simples, bem executadas, acessíveis e, sobretudo, revisitáveis. Filmes que não exigem esforço constante do espectador, mas que funcionam justamente por essa leveza.

Essa escolha contrasta com o cinema atual, muitas vezes marcado por uma busca excessiva por complexidade. Aqui, há um retorno ao essencial. O filme não tenta ser mais do que precisa, e isso pode ser visto tanto como uma limitação quanto como um acerto.

Parte da recepção do público, no entanto, parece deslocada dessa proposta. Críticas sobre a suposta “padronização visual”, frequentemente associadas à estética de produções da Netflix, surgem com frequência, mas nem sempre são acompanhadas de uma análise mais profunda. Há uma repetição de argumentos que sugere mais um eco coletivo do que uma percepção individual. A experiência do filme acaba sendo filtrada por discursos prontos, o que enfraquece a própria análise.

A Variety destacou que o filme “é familiar da melhor forma, atual nos pontos certos e valeu a espera”, reforçando a ideia de que a produção consegue revisitar elementos conhecidos enquanto busca dialogar com o presente. Por outro lado, o The Guardian apontou que “as indústrias da moda e das revistas passaram por uma transformação, mas essa sequência reúne a antiga equipe e recicla a velha trama com estilo”, indicando que o principal desafio da continuação está em equilibrar a força da nostalgia com a necessidade de apresentar algo realmente novo.

A questão estética, especialmente no uso das cores, também merece atenção. A ausência de uma paleta vibrante não é, necessariamente, uma falha. Pelo contrário, é uma escolha alinhada ao tempo atual. Se nos anos 2000 predominavam cores, excessos e identidades visuais marcantes, hoje o cenário é outro. Tons neutros, superfícies lisas e uma estética mais contida dominam não apenas o cinema, mas também a arquitetura, a moda e o cotidiano.

Esperar que o filme mantenha a mesma linguagem visual de duas décadas atrás seria ignorar essa transformação. Quando produções como Stranger Things recriam outras épocas, fazem isso com uma intenção histórica. Neste caso, a proposta é acompanhar o presente, não reproduzir o passado.

Essa atualização também se reflete no conteúdo. O universo da moda, antes retratado como centralizado e impositivo, agora aparece influenciado por múltiplas vozes. As redes sociais e a opinião pública transformaram a dinâmica de poder. A autoridade deixou de ser fixa e passou a ser construída em tempo real.

Como consequência, o filme incorpora uma diversidade mais ampla de corpos, etnias e identidades. O conceito de “fashion” se expande e se torna mais inclusivo, refletindo mudanças que já são visíveis fora da ficção. Não se trata de uma adaptação forçada, mas de um retrato coerente do cenário atual.

Dentro desse contexto, a personagem central enfrenta uma mudança significativa. Acostumada a liderar, ela agora precisa observar, interpretar e se adaptar. Sua postura se torna mais equilibrada, sem perder completamente a essência que a define. Essa transição é um dos elementos mais interessantes do filme.

As atuações sustentam essa nova fase com segurança. A química entre os personagens permanece evidente, e isso compensa eventuais simplificações narrativas. Existe uma naturalidade que reforça a sensação de continuidade, mesmo sem um aprofundamento excessivo.

No fim, este não é um filme que busca grandiosidade ou inovação radical. Ele não pretende reinventar a própria história. O que ele faz é mais simples — e talvez mais honesto: ele continua.

E, ao continuar, aceita que o tempo mudou. A estética mudou. O público mudou.

Resta saber se o espectador está disposto a aceitar essa mudança também.