Por Katarina Reis Teixeira
Corpo, etnia, classe, repertório ou poder aquisitivo realmente determinam quem pode ser percebido como elegante e confiável?
Tenho pensado bastante sobre uma coisa que aparece cada vez mais nas redes sociais: a ideia de que determinadas pessoas simplesmente “nascem chiques”. Às vezes isso vem acompanhado de uma análise da roupa; outras vezes, da pessoa que está usando a roupa. E é justamente aí que acho que precisamos tomar um pouco de cuidado, porque uma coisa é dizer que determinada combinação não funciona. Outra, bem diferente, é concluir que ela não funciona porque aquela pessoa não tem o corpo, a cor, a origem ou o dinheiro que imaginamos que seriam necessários para fazê-la funcionar.
Existe, sim, uma linguagem visual associada à elegância. Há roupas que têm melhor caimento, tecidos que apresentam melhor acabamento, modelagens mais precisas, proporções que funcionam melhor para determinado corpo e combinações que demonstram maior domínio da linguagem da moda. Também existe dress code. Nem toda roupa funciona em qualquer situação, e isso não é necessariamente preconceito. Você não vai a um casamento vestido como se estivesse indo para uma balada, assim como não precisa ir para uma aula ou uma reunião usando a mesma roupa que usaria em uma viagem de férias. O contexto continua importando.
O problema começa quando esses critérios técnicos deixam de ser aplicados à roupa e passam a ser aplicados à pessoa. É nesse momento que a análise estética pode se transformar em julgamento social.
Um estudo publicado na Nature Human Behaviour mostrou justamente como esses julgamentos podem acontecer de maneira muito mais rápida do que imaginamos. Em nove experimentos, pesquisadores apresentaram os mesmos rostos associados a diferentes peças de roupa. As roupas haviam sido previamente avaliadas por observadores independentes como relacionadas a maior ou menor status econômico. O mesmo rosto recebeu avaliações diferentes de competência dependendo da roupa que aparecia associada a ele. [1] Isso não significa que a roupa determine competência ou que seja possível medir a riqueza de alguém simplesmente olhando para o que ela veste. O que o estudo mostra é que sinais econômicos sutis presentes na roupa podem influenciar a maneira como interpretamos a pessoa.
Isso me faz pensar no quanto daquilo que chamamos de “credibilidade” pode estar misturado com coisas que aprendemos socialmente a reconhecer como sinais de status.
Dinheiro, evidentemente, facilita muita coisa. Quem tem mais recursos pode ter acesso a tecidos melhores, alfaiataria sob medida, ajustes profissionais, peças de determinadas marcas, consultoria de imagem e ambientes nos quais determinados códigos de vestimenta são aprendidos e reforçados. Mas acesso não é a mesma coisa que repertório. E falta de dinheiro também não significa falta de repertório.
Uma pessoa pode ter pouco dinheiro e saber exatamente como combinar as peças que tem. Pode entender proporção, cor, textura, ocasião e caimento. Pode conhecer referências históricas de moda e adaptar uma tendência ao próprio guarda-roupa. Da mesma maneira, uma pessoa com muito dinheiro pode comprar roupas caríssimas e ainda assim não saber construir uma imagem coerente com aquilo que pretende comunicar.
É por isso que também tenho certa dificuldade com o rótulo de “novo rico” quando ele é usado para explicar que alguém não sabe se vestir. O termo, nesse contexto, muitas vezes funciona menos como descrição estética e mais como uma maneira de desqualificar quem ascendeu economicamente e ainda não domina determinados códigos sociais. É um rótulo social, não uma categoria objetiva de elegância.
E existe outro aspecto que me parece ainda mais delicado: a maneira como raça e origem também entram nessa percepção.
Durante muito tempo, diferentes grupos foram associados a determinadas imagens. A mulher latina aparece frequentemente relacionada à sensualidade; a pessoa branca, principalmente dentro de determinadas representações europeias e norte-americanas, é mais facilmente associada ao minimalismo, à discrição ou à ideia de “quiet luxury”; corpos negros também são frequentemente enquadrados por estereótipos específicos de beleza e corporalidade. Mas essas associações não descrevem características naturais desses grupos. São expectativas sociais construídas e repetidas culturalmente.
Isso é importante porque, quando uma determinada estética aparece repetidamente em pessoas de um grupo, começamos a confundir frequência com pertencimento. Parece que aquela roupa “é” daquele grupo. Parece que determinada maneira de se vestir combina naturalmente com uma etnia, uma nacionalidade ou um tipo de corpo.
Mas minimalismo não é europeu. Sensualidade não é latina. Alfaiataria não é branca. Streetwear não pertence a uma raça. E elegância não deveria funcionar como uma nacionalidade.
Isso não significa apagar as origens culturais dessas linguagens. A moda tem história, e muitas estéticas nasceram em comunidades, movimentos e contextos específicos. O ponto é outro: uma linguagem pode circular, ser reinterpretada e ganhar novos significados sem que uma pessoa precise pertencer originalmente àquele grupo para utilizá-la.
Uma pesquisa publicada na revista Body Image ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. O estudo sobre mulheres latinas apresentou uma leitura mais ampla e culturalmente situada das experiências de imagem corporal, mostrando que os modelos tradicionais de pesquisa nem sempre capturam todas as particularidades dessas experiências. [2] Isso não significa que exista uma única experiência latina de beleza, mas justamente o contrário: origem cultural, contexto social e outras características da vida de cada mulher interferem na maneira como ela se relaciona com o próprio corpo e com os padrões de beleza.
É por isso que acho complicado quando alguém olha para uma mulher latina vestida de maneira mais discreta, por exemplo, e entende que ela “ficaria melhor” se estivesse usando algo mais justo, curto ou sensual. Por que necessariamente aquela mulher precisa corresponder à imagem que já construímos para ela?
Ela pode escolher ser sensual. Pode escolher ser minimalista. Pode gostar de alfaiataria, de jeans, de vestidos fluidos, de streetwear ou de uma estética completamente diferente. A escolha individual não precisa confirmar o estereótipo para ser legítima.
Também vejo isso acontecer quando falamos sobre corpos. Existe uma tendência de transformar determinadas pessoas em referência justamente por elas representarem uma quebra de padrão, mas, às vezes, acabamos criando outro padrão no processo. A pessoa deixa de ser uma inspiração possível e passa a funcionar como uma espécie de modelo obrigatório de como deveríamos enxergar beleza e inclusão.
Não acho que esse seja o caminho.
Inclusão não significa dizer que qualquer roupa fica automaticamente elegante em qualquer pessoa. Isso seria abandonar justamente a parte técnica da moda. Uma peça pode ter um caimento ruim, uma proporção inadequada, um tecido que não funciona para aquela modelagem ou simplesmente não conversar com a ocasião. Podemos reconhecer isso sem transformar a crítica à roupa em uma crítica à existência da pessoa.
Ao mesmo tempo, não podemos usar esses critérios técnicos como desculpa para rejeitar determinadas pessoas antes mesmo de analisar a roupa.
É uma diferença pequena na teoria, mas enorme na prática.
Quando uma pessoa magra usa uma peça de alfaiataria mal ajustada, normalmente discutimos o corte, a modelagem ou o styling. Quando uma pessoa acima do peso usa a mesma peça, será que fazemos a mesma análise ou começamos imediatamente a discutir o corpo dela? Quando uma pessoa branca usa uma estética minimalista, enxergamos “sofisticação”; quando uma pessoa negra faz exatamente a mesma escolha, será que interpretamos da mesma maneira? Quando uma mulher latina escolhe uma roupa básica, conseguimos enxergá-la simplesmente como uma pessoa usando uma roupa básica ou esperamos que ela seja sensual?
Essas perguntas não significam que toda percepção diferente seja preconceito. O gosto pessoal existe. A moda também é subjetiva. Mas talvez seja interessante perceber quando estamos avaliando a roupa e quando já estamos avaliando a pessoa antes dela.
As redes sociais tornaram isso ainda mais complexo porque hoje praticamente qualquer pessoa pode se transformar em referência. As chamadas it girls, modelos e influenciadoras aparecem o tempo todo mostrando como usar determinada peça, como montar um guarda-roupa ou como alcançar uma determinada estética. E eu não vejo problema nisso. Pelo contrário: acho que referências ampliam repertório.
O problema é quando inspiração vira cópia.
Uma modelo pode mostrar uma maneira de usar uma camisa e me fazer perceber que eu poderia usar a minha de outra forma. Uma influenciadora pode apresentar uma combinação de cores que eu nunca tinha considerado. Uma mulher com um corpo diferente do meu pode me mostrar uma possibilidade de styling que eu consigo adaptar. O objetivo da referência deveria ser aumentar as minhas possibilidades, não me convencer de que preciso me transformar naquela pessoa.
Um estudo publicado em Body Image analisou 460 modelos presentes em publicações de 16 marcas de moda e beleza no Instagram. Embora modelos diversos aparecessem com frequência, a diversidade não se distribuía igualmente entre as dimensões analisadas: a diversidade racial era mais representada, enquanto a diversidade corporal, facial e geracional aparecia em proporções menores. O estudo também encontrou uma forte presença de enquadramentos de sexualização. [3] É um recorte específico de publicações de marcas no Instagram, e não uma fotografia de toda a indústria da moda, mas ele ajuda a entender como até mesmo discursos de diversidade podem ser construídos de maneira desigual.
Isso também me faz pensar na diferença entre representar alguém e realmente permitir que aquela pessoa seja uma referência.
Não basta colocar corpos diferentes em uma campanha se, ao mesmo tempo, continuamos tratando apenas um tipo de corpo como naturalmente elegante, sofisticado ou desejável. A representação pode mudar a imagem, mas os critérios usados para interpretar essa imagem também precisam ser questionados.
Outro estudo, publicado em 2025, analisou 1.310 modelos presentes em 1.111 anúncios de moda e beleza publicados nas versões belgas das revistas Elle e Marie Claire entre 2010 e 2020. Menos de 0,5% das modelos eram classificadas como plus size, enquanto 8,08% estavam na categoria corporal média definida pelos pesquisadores. [4] Esses números não representam toda a indústria mundial nem descrevem necessariamente o mercado atual, mas mostram como a diversidade corporal era bastante limitada naquele recorte específico.
E acho que existe uma discussão importante aí: se uma indústria define durante décadas um determinado corpo como padrão visual, não é estranho que o público passe a associar aquele corpo à própria ideia de elegância. O que parece “natural” muitas vezes é apenas aquilo que fomos acostumados a ver.
É também por isso que gosto de observar marcas brasileiras que tentam construir outras linguagens. A Mondepars, criada por Sasha Meneghel, é um exemplo interessante nesse sentido. Em entrevista à ELLE Brasil, Sasha descreveu a marca como versátil e atemporal e falou sobre seu interesse por alfaiataria, matéria-prima, acabamento e roupas que possam ser usadas de diferentes maneiras. [5] Na minha leitura, a marca trabalha uma estética mais limpa, com atenção às proporções e às modelagens, sem depender necessariamente daquela imagem mais sensual que muitas vezes é associada à moda brasileira.
Isso não significa que essa estética seja mais elegante do que uma estética sensual, nem que represente melhor o Brasil. É simplesmente outra possibilidade dentro da moda brasileira.
E talvez seja justamente essa possibilidade de escolha que esteja faltando quando transformamos estética em regra.
Uma pessoa pode querer seguir um estilo mais clássico. Outra pode preferir algo maximalista. Uma terceira pode gostar de roupas sensuais. Outra pode gostar de roupas largas. Uma pessoa pode querer parecer extremamente sofisticada, enquanto outra não tem o menor interesse nisso. Nenhuma dessas escolhas precisa ser transformada em uma hierarquia moral.
O que precisamos saber é o que estamos comunicando e se a roupa consegue sustentar aquilo que queremos comunicar.
Por isso, para mim, elegância não é simplesmente vestir uma roupa cara. Também não é simplesmente ser magra, ter determinado tom de pele, nascer em determinado país ou pertencer a determinada classe social. Existe técnica, existe repertório, existe contexto e existe intenção. Existe também a maneira como a sociedade interpreta esses sinais.
E talvez seja justamente essa última parte que precise de mais atenção.
Porque quando olhamos para uma pessoa e pensamos imediatamente “ela é chique”, precisamos perguntar o que exatamente estamos enxergando. É o tecido? O caimento? A combinação? A postura? O contexto? A marca? O ambiente? O dinheiro que imaginamos que aquela pessoa tenha? A cor da pele? O corpo? A associação que fazemos entre aquela aparência e determinado grupo social?
Será que estamos analisando a roupa ou estamos reconhecendo um conjunto de sinais que aprendemos a associar à credibilidade?
Também acho importante não cair no extremo contrário. Não quero defender a ideia de que qualquer pessoa precisa vestir qualquer estética para provar que é elegante ou que qualquer crítica a uma roupa é preconceituosa. Não é isso. A moda possui códigos, e aprender esses códigos pode ser uma forma de ampliar nossa liberdade de escolha. Conhecer dress codes, proporções, tecidos, modelagens e acabamentos não deveria servir para excluir pessoas, mas para dar a elas mais ferramentas para construir a própria imagem.
Da mesma forma, ninguém deveria precisar alcançar um determinado corpo para ter autorização para experimentar uma estética.
O corpo pode mudar. O estilo pode mudar. A situação financeira pode mudar. O repertório também muda. E tudo isso faz parte da construção pessoal de uma imagem.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja se determinada pessoa tem o corpo, a etnia ou o dinheiro necessário para parecer elegante. Talvez seja entender por que, quando vemos determinada estética em alguém, imediatamente pensamos que ela pertence àquela pessoa e não a outra.
A inspiração deveria aumentar as possibilidades de alguém, não criar uma lista de pessoas autorizadas a usar determinada linguagem.
Eu posso olhar para uma mulher que admiro, gostar da maneira como ela se veste e aprender alguma coisa com ela sem precisar ter o mesmo corpo, a mesma história, o mesmo dinheiro ou a mesma origem. Posso adaptar aquela referência à minha realidade e continuar sendo eu.
Porque talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da moda: não em descobrir quem tem permissão para usar determinada estética, mas em descobrir quantas maneiras diferentes existem de interpretá-la.

