Edição semanal
← Edição The Big Four: SS26/27

The Big Four: SS26/27

Por Katarina Reis Teixeira O que as quatro grandes semanas de moda revelam sobre a próxima temporada? Nova York, Londres, Milão e Paris já ...

 The Big Four: SS26/27

Por Katarina Reis Teixeira

O que as quatro grandes semanas de moda revelam sobre a próxima temporada?

Nova York, Londres, Milão e Paris já apresentaram suas coleções de primavera/verão 2027. Algumas propostas começam a aparecer mais de uma vez, enquanto outras permanecem ligadas à identidade de determinadas marcas e cidades.

Existe uma coisa curiosa em acompanhar uma temporada de moda enquanto ela acontece: algumas tendências começam a se repetir antes mesmo que o calendário termine, mas outras só fazem sentido quando olhamos para todas as cidades juntas.

Cada semana de moda tem sua própria linguagem, e isso torna a comparação interessante. Uma mesma peça pode aparecer em diferentes coleções, mas ganhar outro significado dependendo do material, da proporção ou da maneira como é combinada.

Foto via gettyimages/STELLA MCCARTNEY

Nas coleções apresentadas até aqui, algumas ideias chamaram minha atenção, como a lingerie incorporada ao vestuário cotidiano, a transparência, a releitura de peças clássicas e a presença de roupas que não seguem necessariamente uma estética perfeitamente acabada.

Isso não significa que exista uma única direção para a temporada. Mas já é possível observar alguns movimentos e entender como eles aparecem de maneiras diferentes em cada cidade.

Nova York: os clássicos voltam, mas não exatamente como antes

Em Nova York, algumas peças bastante conhecidas apareceram sob novas proporções e interpretações.

A camisa branca, por exemplo, deixou de ser apenas uma peça básica de guarda-roupa e apareceu transformada em vestido, com construções diferentes e detalhes deslocados.

A saia na altura do joelho também ganhou espaço, assim como as bermudas, que apareceram tanto em propostas mais fluidas quanto em versões de alfaiataria e denim.

Outro movimento foi a combinação entre cores suaves e intensas. Tons pastel apareceram ao lado de vermelho, azul e amarelo, enquanto tecidos acetinados, paetês e outras superfícies brilhantes trouxeram luminosidade para alguns dos looks.

O que me chama a atenção em Nova York é justamente essa tentativa de partir de peças reconhecíveis. Não parece existir uma necessidade de abandonar completamente o guarda-roupa conhecido, mas de mexer nele, mudar o comprimento, a proporção, o material ou a maneira de usar.

É interessante pensar que, muitas vezes, a novidade não está necessariamente em criar uma peça que nunca vimos antes, mas em encontrar outra maneira de trabalhar algo que já faz parte do nosso repertório.

Foto via thezoereport.com/CAROLINA HERRERA

Foto via gettyimages/TORY BURCH

Londres: lingerie à mostra e a beleza do imperfeito

Se Nova York parece brincar com os clássicos, Londres apresentou uma relação mais experimental com a construção das roupas.

A lingerie apareceu de maneira bastante evidente. Sutiãs, corsets e referências ao universo íntimo foram incorporados aos looks, muitas vezes sobre outras peças ou combinados com alfaiataria. A transparência também ganhou espaço, com rendas, tules e tecidos translúcidos.

Os comprimentos ficaram menores em diferentes coleções, com shorts curtos e minissaias dividindo espaço com novas proporções de alfaiataria. Blazers ganharam ombros mais largos, cinturas marcadas e construções assimétricas.

Outro elemento que me chamou a atenção foi a imperfeição como escolha estética. Bordas desfiadas, tecidos com aparência inacabada e construções menos rígidas criaram uma sensação de roupa que não precisa parecer perfeitamente acabada para ser interessante.

Londres também apresentou contrastes entre alfaiataria tradicional e referências esportivas, lingerie e peças masculinas, romantismo e elementos mais urbanos.

É uma forma de trabalhar a oposição entre elementos que, à primeira vista, parecem pertencer a universos diferentes. Em vez de buscar uma composição completamente uniforme, algumas propostas encontram interesse justamente nessa mistura.

Foto via harpersbazaar.com/BURBERRY
Foto via savoirflair.com/SIMONE ROCHA

Milão: entre o delicado, o sensual e o desfeito

Em Milão, algumas tendências começaram a conversar diretamente com aquilo que apareceu em Londres, principalmente quando pensamos na presença da lingerie e na desconstrução de peças tradicionais.

Bege e rosa-claro apareceram em diferentes coleções, criando uma paleta mais suave. Ao mesmo tempo, bustiers e sutiãs foram colocados em evidência, algumas vezes sozinhos e outras combinados a diferentes camadas.

O slip dress também apareceu novamente, enquanto as calças capri voltaram a dividir espaço com outras silhuetas. As franjas acrescentaram movimento a diferentes propostas.

As saias também ganharam bastante espaço. Na Prada, por exemplo, elas tiveram papel central na coleção, com diferentes comprimentos, materiais e combinações.

Outra característica que me chamou a atenção foi a aparência menos impecável de algumas peças. Xadrez, efeitos amassados e combinações que parecem propositalmente menos arrumadas surgiram como alternativas ao visual extremamente polido.

É como se a roupa pudesse mostrar um pouco do processo pelo qual passou, em vez de esconder completamente suas marcas.

Isso não significa que a sofisticação tenha desaparecido. Ela continua presente, mas, em algumas propostas, convive com elementos que tornam o resultado menos previsível.

Foto via ny1.com/PRADA

Foto via gettyimages/ERMANNO SCERVINO

Paris: o que permanece e o que ganha outra interpretação

Com o encerramento da Paris Fashion Week, em 6 de outubro, a temporada ganhou sua última etapa entre as quatro grandes capitais da moda.

Ao observar os desfiles, uma das questões mais interessantes é perceber que Paris não precisa apresentar uma tendência completamente nova para contribuir com a leitura da temporada. Em algumas coleções, ideias que já apareceram nas outras cidades ganharam novas interpretações.

A transparência e a lingerie incorporada ao vestuário, por exemplo, continuaram presentes. A relação entre a roupa íntima e as peças usadas no cotidiano também apareceu entre as propostas que chamaram a atenção durante a semana.

Ao mesmo tempo, as coleções trouxeram diferentes interpretações de elegância, desde construções mais estruturadas até roupas leves, com movimento e referências a décadas anteriores.

Outro ponto foi a maneira como peças tradicionais foram trabalhadas. Saias, vestidos e elementos de alfaiataria apareceram em combinações que alteram sua função habitual, sem necessariamente abandonar aquilo que os torna reconhecíveis.

Na Miu Miu, por exemplo, a coleção explorou contrastes entre denim, referências esportivas, tweed, alfaiataria e vestidos bordados. Essa combinação entre elementos de universos diferentes também dialoga com o que apareceu em outras cidades, especialmente na maneira de misturar referências e transformar peças conhecidas.

Paris também apresentou propostas que chamam a atenção pela construção e pelas texturas. Em vez de depender apenas de estampas ou cores intensas, algumas roupas encontram interesse nos próprios materiais, nos detalhes e na maneira como são montadas.

O que me chama a atenção é que a temporada não parece depender de uma única estética. Há espaço para o delicado, o sensual, o estruturado e o experimental, muitas vezes dentro de uma mesma semana de moda.

Para mim, essa é uma das partes mais interessantes de acompanhar as coleções em conjunto. Uma tendência pode aparecer em cidades diferentes, mas isso não significa que ela será interpretada da mesma maneira por todos os estilistas.

Foto via gettyimages/MIUMIU

Foto via gettyimages/CHANEL

O que começa a se repetir?

O mais interessante, até aqui, talvez não seja encontrar uma única tendência dominante, mas perceber algumas ideias que atravessam cidades diferentes.

A lingerie aparece com força em Londres, Milão e Paris. A transparência também. As peças clássicas continuam presentes, mas são alteradas em comprimento, proporção, material ou forma de uso.

A imperfeição aparece de maneiras diferentes, nos acabamentos desfiados e nas construções menos convencionais de Londres, nos efeitos amassados e nas combinações menos polidas de Milão.

As saias também merecem atenção, assim como a presença de peças que podem ser combinadas de diferentes maneiras. Em vez de uma única silhueta dominar todas as coleções, encontramos propostas variadas que convivem na mesma temporada.

Outro aspecto é a relação com o passado. A moda continua revisitando peças e referências conhecidas, mas sem necessariamente reproduzi-las da mesma maneira.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais interessantes desta temporada: o que significa criar algo novo quando tantas peças, referências e silhuetas já foram usadas, reinterpretadas ou resgatadas alguma vez?

Até aqui, o que vejo é menos uma tendência única e mais uma mudança na maneira de tratar a roupa. A lingerie deixa de ficar necessariamente escondida, os clássicos são deslocados e a imperfeição pode se transformar em recurso visual.

Mas também é importante considerar que nem tudo o que aparece nas passarelas se transforma em tendência de consumo. Algumas propostas permanecem ligadas a determinadas coleções, enquanto outras ganham força quando começam a ser reinterpretadas por diferentes marcas, aparecem nos editoriais e chegam às ruas.

Além do Big Four, outras semanas de moda também merecem atenção

Embora Nova York, Londres, Milão e Paris formem o circuito tradicionalmente conhecido como Big Four, a leitura da moda não se limita a essas quatro cidades.

Copenhague, por exemplo, apresentou coleções para a primavera/verão 2027 com diferentes interpretações do minimalismo escandinavo, além de propostas mais expressivas, combinações de estampas, referências românticas e peças esportivas incorporadas ao cotidiano.

No Brasil, a Rio Fashion Week também merece espaço nessa conversa. A criação nacional possui referências próprias e dialoga com diferentes contextos culturais, o que torna interessante observar suas propostas sem necessariamente compará-las às passarelas internacionais pelos mesmos critérios.

Em Portugal, a ModaLisboa também oferece um recorte particular da criação de moda. Nas imagens e nos looks que acompanhei nesta edição, algumas escolhas de cores, texturas e movimento me chamaram a atenção, especialmente a presença de franjas e de peças mais coloridas.

É importante fazer uma distinção aqui. Essa é uma observação pessoal a partir do que consegui acompanhar, e não uma conclusão sobre todas as coleções apresentadas em Lisboa. Para afirmar que determinada proposta representa uma tendência da semana, seria necessário observar um conjunto maior de desfiles e identificar se ela realmente se repete.

Ainda assim, acompanhar essas outras semanas ajuda a ampliar a perspectiva. A moda não se desenvolve de maneira uniforme, e diferentes mercados, criadores e contextos culturais produzem leituras próprias de uma mesma estação.

Quando uma repetição se transforma em tendência?

Depois de acompanhar as quatro grandes semanas de moda, uma questão permanece: em que momento uma proposta deixa de ser uma escolha de determinado estilista e passa a ser reconhecida como tendência?

A repetição é uma pista, mas não é o único critério. Uma peça pode aparecer em várias coleções e ainda assim receber interpretações muito diferentes. Da mesma forma, uma ideia pode ter pouca presença nas passarelas e ganhar visibilidade posteriormente, por meio de editoriais, celebridades, criadores de conteúdo, marcas comerciais e consumidores.

Por isso, acho importante diferenciar aquilo que foi observado nas coleções daquilo que podemos afirmar sobre o comportamento futuro do mercado. As passarelas oferecem sinais e possibilidades, mas não determinam sozinhas o que será consumido ou incorporado ao cotidiano.

Uma tendência também não chega necessariamente às ruas da mesma maneira que foi apresentada em um desfile. Comprimentos podem ser adaptados, materiais substituídos e combinações reinterpretadas de acordo com diferentes públicos, necessidades e faixas de preço.

Ao observar a temporada Primavera/Verão 2027, o que mais me interessa é perceber como propostas distintas podem coexistir. Elementos delicados aparecem ao lado de construções menos convencionais, peças tradicionais ganham novas funções e a sensualidade surge tanto em propostas elaboradas quanto em combinações mais cotidianas.

Foto via gettyimages/BALENCIAGA

No fim, acompanhar uma temporada é também observar como diferentes criadores encontram respostas próprias para questões semelhantes. Não se trata apenas de reunir uma lista de peças que apareceram nos desfiles, mas de entender o que essas escolhas podem revelar sobre a maneira como estamos pensando e usando a roupa.

Por enquanto, as quatro cidades oferecem pistas interessantes. Resta acompanhar como essas propostas vão sair das passarelas, ganhar outras interpretações e, eventualmente, chegar ao guarda-roupa de quem consome moda.

Referências

Nova York

Fashionista. New York Fashion Week Spring 2027 Trends. Disponível em: https://fashionista.com/2026/09/new-york-fashion-week-spring-2027-trends

Londres

Fashionista. London Fashion Week Spring 2027 Trends. Disponível em: https://fashionista.com/2026/09/london-fashion-week-spring-2027-trends

Vogue. London Is So Back: Key Takeaways From Spring/Summer 2027. Disponível em: https://www.vogue.com/article/london-is-so-back-key-takeaways-from-spring-summer-2027

Milão

Fashionista. Milan Fashion Week Spring 2027 Trends. Disponível em: https://fashionista.com/2026/09/milan-fashion-week-spring-2027-trends

Vogue. Rooted in Reality: Key Takeaways From Milan Fashion Week Spring/Summer 2027. Disponível em: https://www.vogue.com/article/rooted-in-reality-3-key-takeaways-for-milan-fashion-week-spring-summer-2027

Paris

Vogue. Skirts, Shoes and Celine Dion: Key Takeaways From Paris Fashion Week Spring/Summer 2027. Disponível em: https://www.vogue.com/article/skirts-shoes-and-celine-dion-key-takeaways-from-paris-fashion-week-spring-summer-2027

Vogue. Paris Fashion Week Cheat Sheet: Spring/Summer 2027. Disponível em: https://www.vogue.com/article/paris-fashion-week-cheat-sheet-spring-summer-2027

Copenhague

Vogue. The Trends That Made a Splash at the Spring 2027 Shows in Copenhagen. Disponível em: https://www.vogue.com/article/the-trends-that-made-a-splash-at-the-spring-2027-shows-in-copenhagen

ELLE. Copenhagen Fashion Week Spring/Summer 2027 Trends. Disponível em: https://www.elle.com/runway/a73345743/copenhagen-fashion-week-spring-summer-2027-trends/

Nota editorial: as observações sobre a Rio Fashion Week e a ModaLisboa foram mantidas como contextualização, sem atribuir a elas tendências específicas que não tenham sido verificadas em um conjunto representativo de coleções. Recomenda-se conferir os links e as informações das fontes antes da publicação.