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CINEMA

O Bosque Selvagem: Uma Animação Nostálgica

Por Katarina Reis Teixeira A beleza da animação, as referências conhecidas e as escolhas narrativas Assistir a O Bosque Selvagem foi uma ex...

O Bosque Selvagem: Uma Animação Nostálgica

Por Katarina Reis Teixeira

A beleza da animação, as referências conhecidas e as escolhas narrativas

Assistir a O Bosque Selvagem foi uma experiência que me fez observar diferentes aspectos da produção. A animação tem uma estrutura interessante, personagens carismáticos, uma trilha sonora que funciona bem e uma proposta visual que merece reconhecimento. Ao mesmo tempo, saí da sessão com algumas questões sobre a construção da história, as motivações dos personagens, as escolhas de conteúdo e a maneira como determinados acontecimentos são apresentados ao espectador.

Produzido pelo estúdio LAIKA, conhecido por trabalhos como Coraline e Kubo e as Cordas Mágicas, o filme é baseado no primeiro livro da trilogia literária Wildwood, escrita por Colin Meloy e ilustrada por Carson Ellis. A produção levou aproximadamente sete anos e envolveu mais de mil profissionais, além de milhares de planos de animação. É um projeto de grande dimensão, que exigiu um trabalho técnico considerável para construir os personagens, os cenários e o universo fantástico apresentado na tela.

Durante a cabine de imprensa, também tivemos a oportunidade de conversar com Giulia Benite, dubladora de Prue, Pedro Burgarelli, responsável pela voz de Curtis, e Thiago Calçado, animador de stop-motion que participou da produção. Os relatos ajudaram a compreender parte do processo de realização do filme, desde a interpretação dos personagens até o trabalho minucioso de animação.

Uma protagonista forte, mas uma construção familiar questionável

Prue é uma personagem com personalidade forte, determinada e capaz de conduzir a própria jornada. No entanto, a maneira como ela é construída me fez questionar algumas escolhas do roteiro. Em determinados momentos, senti que a personagem assume uma identidade muito adulta para uma menina, aproximando-se da figura da jovem ativista que carrega uma ideologia e ocupa uma posição de protagonismo diante de adultos que parecem completamente passivos.

O problema, para mim, não está em apresentar uma menina independente, corajosa ou capaz de tomar decisões. Pelo contrário, uma protagonista feminina pode conduzir uma história de aventura sem precisar ser colocada em oposição à família. O que me incomodou foi a impressão de que os pais de Prue são apresentados de maneira tão passiva que acabam parecendo obsoletos dentro da narrativa, como se a força da menina dependesse, em parte, da fragilidade das figuras adultas ao seu redor.

Essa construção também se torna mais complexa quando conhecemos a história dos pais e a maneira como o nascimento do filho está relacionado à magia e a um pacto com a mulher que governa aquele universo. A princípio, o casal parece seguir uma filosofia de vida tranquila, ligada à natureza e a uma espécie de espírito hippie. Entretanto, quando a história revela até onde eles estavam dispostos a ir para conseguir ter um filho, surge uma dimensão mais sombria desses personagens.

Há, inclusive, uma piada que faz referência ao satanismo quando aparece uma cabeça de bode no local em que eles procuram ajuda. A situação tem um componente cômico, mas também levanta uma questão sobre a moralidade daquele universo: até que ponto essas pessoas estariam dispostas a ir para conseguir aquilo que desejam?

Essa contradição poderia ser explorada com mais profundidade. Afinal, personagens que parecem representar uma filosofia de vida tranquila também podem tomar decisões moralmente questionáveis. Isso não seria necessariamente um problema, desde que o roteiro desenvolvesse melhor as consequências dessas escolhas. Na minha percepção, o filme apresenta essa dimensão sombria, mas não aprofunda suficientemente suas implicações.

A magia e as regras de um universo pouco explicado

A maneira como a magia funciona é outro ponto que me deixou com dúvidas. Existe uma tentativa de estabelecer uma diferença entre a magia boa e a magia ruim, mas, ao longo da história, parece que ambas têm uma origem comum e que a separação entre elas não é tão clara quanto deveria ser.

A questão não é simplesmente aceitar que uma história fantástica tenha regras próprias. O público não precisa conhecer todos os detalhes de um universo mágico para acompanhar uma aventura. Entretanto, algumas regras precisam ser compreensíveis para que as ações dos personagens façam sentido.

Isso aparece também na construção do bosque, na convivência entre humanos e animais falantes e na existência de diferentes reinos. Há um portal que permite à protagonista entrar naquele universo, mas nem sempre fica claro como funciona o acesso a determinados lugares ou quais são as condições necessárias para atravessá-los.

Uma das situações que me chamou a atenção foi justamente a entrada de Curtis no bosque. Se existe uma regra segundo a qual apenas determinadas pessoas podem entrar naquele espaço, como o menino consegue atravessá-lo junto com Prue? É uma pergunta simples, mas que interfere na compreensão do funcionamento daquele mundo.

O mesmo acontece com os animais falantes e com as diferentes comunidades que aparecem ao longo da história. Eles têm personalidade, ocupam posições importantes na narrativa e participam dos conflitos, mas a relação entre esses grupos nem sempre é suficientemente explicada.

Não considero necessário que o filme apresente uma longa explicação para cada reino, criatura ou regra mágica. O problema é quando a ausência de explicação deixa de ser um recurso de mistério e passa a comprometer a compreensão dos acontecimentos.

As semelhanças com As Crônicas de Nárnia

Um dos pontos que mais me chamaram a atenção foi a semelhança entre determinadas situações de O Bosque Selvagem e a história de As Crônicas de Nárnia, especialmente em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

A comparação começa na maneira como os personagens entram em um universo fantástico e acabam envolvidos em um conflito muito maior do que imaginavam. Em Nárnia, Edmundo se separa dos irmãos e encontra a Feiticeira Branca, também conhecida como Jadis. Ela oferece comida ao menino, conquista sua confiança e tenta atraí-lo para o próprio lado, explorando suas fraquezas e seus desejos.

Em O Bosque Selvagem, enxerguei uma construção semelhante na relação entre Curtis e a mulher que governa aquele universo. A maneira como o menino é introduzido à realidade dela, a aproximação entre os dois e a intenção de envolvê-lo em seus planos me fizeram lembrar diretamente da dinâmica entre Edmundo e a Feiticeira Branca.

A semelhança não fica restrita a essa relação. Também percebi aproximações na existência de um mundo mágico ameaçado por uma figura poderosa, na presença de personagens que tentam impedir essa dominação e na construção de um conflito que culmina em uma grande batalha.

Em Nárnia, existe a divisão entre aqueles que estão sob a influência da Feiticeira Branca e aqueles que lutam ao lado de Aslan para libertar o reino. Em O Bosque Selvagem, também encontramos uma disputa pelo controle daquele universo, com diferentes grupos envolvidos em um conflito que cresce até chegar ao confronto final.

A utilização da espada e o contexto de guerra também reforçaram essa impressão. São elementos comuns em histórias de fantasia, evidentemente, mas, quando aparecem associados a uma dinâmica de sedução, manipulação e disputa pelo domínio de um mundo mágico, a comparação se torna mais evidente para quem conhece as duas obras.

Na minha leitura, algumas dessas semelhanças são fortes o suficiente para provocar questionamentos sobre a originalidade das escolhas narrativas. Cheguei a considerar que certas passagens se aproximam muito de uma reprodução de estruturas já conhecidas de Nárnia. Isso não significa afirmar que houve cópia deliberada, mas considero que a semelhança merece ser discutida.

Também existe uma diferença importante entre as duas histórias na maneira como os personagens são apresentados. A trajetória de Edmundo envolve escolhas erradas, traição, arrependimento e transformação. Em O Bosque Selvagem, Curtis é apresentado como um menino corajoso, e sua trajetória também passa por decisões difíceis. Ainda assim, senti que algumas dessas situações poderiam ter sido desenvolvidas de maneira mais profunda para que suas consequências emocionais tivessem maior impacto.

Uma história infantil ou uma fantasia de tom mais sombrio?

Outra questão que me chamou a atenção foi o conteúdo apresentado pelo filme. Embora seja uma animação, a obra inclui cenas de violência, sangue, sacrifício e conflitos que, na minha avaliação, vão além daquilo que muitas pessoas esperam de um filme infantil convencional.

A presença de temas sombrios não é, por si só, um defeito. Existem animações que trabalham com medo, morte, luto e dilemas morais de maneira muito eficiente. O que considero importante é que exista uma relação coerente entre o conteúdo apresentado, a maneira como ele é desenvolvido e o público ao qual o filme pretende chegar.

Em O Bosque Selvagem, a ideia de sacrifício ocupa um lugar importante na história. A mulher que governa aquele universo deseja trazer o próprio filho de volta à vida e está disposta a realizar um sacrifício para conseguir isso. A situação cria uma motivação dramática, mas algumas regras relacionadas à magia e às consequências das ações não me pareceram suficientemente claras.

Há, por exemplo, uma diferença entre a dimensão do sacrifício que a personagem pretende realizar e a maneira como o sangue de Prue parece ser capaz de interferir naquele processo. Eu me perguntei por que uma ação tão extrema seria necessária se uma quantidade tão pequena de sangue da menina poderia produzir uma consequência tão significativa.

É o tipo de questão que poderia ser resolvida com uma explicação melhor construída. Quando as regras mágicas não são suficientemente estabelecidas, decisões que deveriam parecer dramáticas acabam gerando dúvidas sobre a lógica da própria história.

Também há a presença de casais do mesmo sexo e cenas de beijos entre pessoas do mesmo sexo. Na minha avaliação, algumas dessas cenas não acrescentam algo relevante ao desenvolvimento da trama e poderiam ter sido substituídas por momentos que ajudassem a explicar melhor o funcionamento daquele universo ou as motivações dos personagens.

Essa é uma impressão pessoal sobre as escolhas narrativas do filme. A questão, para mim, não é simplesmente a existência desses personagens ou relacionamentos, mas a função que determinadas cenas desempenham dentro da história. Quando considero que uma passagem não contribui suficientemente para o desenvolvimento dos personagens ou para a compreensão do conflito, questiono sua necessidade narrativa.

Também me chamou a atenção a linguagem utilizada na versão brasileira, com expressões como “elu”, que considero desnecessárias naquele contexto. Não consegui determinar apenas pela experiência da sessão se essa escolha já estava presente no roteiro original ou se foi introduzida na adaptação brasileira. Como se trata de uma dublagem, não seria correto atribuir automaticamente essa decisão aos profissionais brasileiros sem confirmar a versão original.

Por isso, considero importante distinguir a minha crítica às escolhas de conteúdo daquilo que efetivamente pode ser confirmado sobre a produção e a adaptação. Minha impressão é que o filme reúne elementos de aventura, humor e fantasia com abordagens contemporâneas que nem sempre parecem integradas de maneira orgânica à narrativa.

O que funciona: humor, personagens e personalidade

Apesar das críticas, O Bosque Selvagem tem qualidades que merecem reconhecimento. Uma delas é o humor. O filme apresenta trocadilhos e situações cômicas que remetem a um estilo de animação que conhecemos de produções dos anos 2000, como Os Incríveis.

É um humor que consegue funcionar em diferentes níveis, sem depender exclusivamente de piadas infantis ou de referências compreensíveis apenas para adultos. Em vários momentos, a comédia ajuda a equilibrar a aventura e os conflitos mais sombrios, tornando a experiência mais leve.

A química entre os personagens também funciona bem. Mesmo sendo uma animação, existe uma dinâmica interessante entre as crianças, e os personagens mais novos me pareceram especialmente carismáticos.

Os animais são um dos grandes acertos do filme. Cada um deles tem uma personalidade própria, com características que permitem reconhecê-los para além de sua aparência. Eles não parecem estar ali apenas para preencher o universo fantástico ou oferecer momentos de humor. Suas atitudes, seus comportamentos e suas particularidades ajudam a construir a identidade de cada personagem.

Esse é um aspecto que considero muito positivo. Conseguir fazer com que o público enxergue personalidades distintas em animais antropomorfizados exige cuidado na construção dos personagens, e o filme demonstra competência nesse sentido.

Também considero interessante a maneira como a história trabalha a coragem e o sacrifício pessoal. Há um momento em que Curtis, que afirma não matar ninguém, acaba tendo que matar um coiote para proteger Prue. A situação é forte porque coloca um menino diante de uma decisão que tem consequências morais e emocionais.

Não se trata apenas de uma cena de ação. O personagem precisa enfrentar algo que contraria aquilo que dizia acreditar, e isso poderia representar um momento importante de amadurecimento.

Entretanto, senti falta de uma reação mais desenvolvida de Prue depois do acontecimento. Curtis coloca a própria vida em risco e toma uma decisão extrema para protegê-la, mas a reação da menina não me pareceu dar à situação o peso que ela poderia ter.

Não esperava necessariamente uma declaração de afeto ou uma mudança imediata na relação entre os dois. Esperava, porém, que o roteiro aproveitasse melhor aquele momento para desenvolver a conexão entre os personagens e mostrar como uma experiência tão intensa poderia afetá-los.

É uma oportunidade narrativa que, na minha percepção, acabou sendo pouco explorada.

Uma produção grandiosa, mas com momentos que evidenciam o processo

Do ponto de vista técnico, O Bosque Selvagem é um projeto ambicioso. A produção envolveu mais de mil profissionais, levou aproximadamente sete anos e exigiu a construção de centenas de bonecos e cenários, além da realização de milhares de planos de animação.

O stop-motion exige que os personagens sejam movimentados manualmente, quadro a quadro, com fotografias sucessivas que, quando reproduzidas em sequência, criam a ilusão de movimento. É um processo que demanda planejamento, precisão e um trabalho coletivo considerável.

Durante a cabine de imprensa, Thiago Calçado explicou parte das etapas de animação, desde o blocking até os ensaios e a finalização das cenas. Também comentou que os profissionais podem mudar de sequência durante a produção, conforme as necessidades do projeto.

Outro ponto importante foi a utilização de efeitos visuais. Embora o stop-motion seja a base da obra, o filme também recorre a recursos digitais para complementar determinadas cenas, especialmente aquelas que apresentam maior complexidade visual. A produção combina, portanto, técnicas artesanais e tecnologia, em vez de depender exclusivamente da animação física.

A guerra final é um exemplo dessa dimensão. A trilha sonora funciona particularmente bem nesse momento, contribuindo para a escala do confronto e para a sensação de intensidade. A música ajuda a dar ritmo às cenas e reforça o impacto visual da sequência.

Ainda assim, houve momentos em que senti que o resultado técnico poderia ser mais uniforme. Em algumas passagens, principalmente nas cenas mais rápidas, tive a impressão de que os movimentos pareciam fragmentados, como se fosse possível perceber com muita facilidade a sucessão de fotografias que compõe a animação.

Sei que o stop-motion não precisa apresentar movimentos idênticos aos de uma filmagem convencional. A própria natureza da técnica faz parte de seu encanto, e não espero que uma produção artesanal elimine todas as características que a distinguem de outras formas de animação.

O que me chamou a atenção foi a maneira como determinadas cenas pareciam interrompidas ou pouco fluidas. Em alguns momentos, a movimentação dos personagens me pareceu menos natural do que eu esperava, e isso acabou me tirando um pouco da experiência.

Como alguém que presta atenção a esses detalhes, não consegui deixar de perceber essas diferenças. Não tenho elementos suficientes para atribuir esse resultado à organização das equipes, ao tempo de produção ou às decisões técnicas específicas. Seria necessário conhecer mais detalhes do processo para chegar a essa conclusão.

O que posso dizer é que, apesar da dimensão impressionante do projeto, algumas sequências não me pareceram tão bem resolvidas quanto outras.

A tecnologia pode substituir o trabalho dos animadores?

A combinação entre stop-motion e efeitos visuais também levantou uma discussão durante a cabine de imprensa: a possibilidade de a inteligência artificial substituir profissionais que trabalham com animação.

O questionamento é compreensível em um momento em que diferentes áreas criativas estão discutindo os impactos das novas tecnologias. Entretanto, a experiência de uma produção como O Bosque Selvagem mostra que a realização de uma animação desse porte envolve muito mais do que produzir imagens.

Existe um trabalho de concepção dos personagens, construção dos cenários, planejamento dos movimentos, iluminação, fotografia, atuação, direção e coordenação entre diferentes equipes. Mesmo quando recursos digitais são utilizados, eles fazem parte de um processo criativo que depende de decisões humanas.

Isso não significa que a tecnologia não possa transformar o mercado ou modificar determinadas funções. Significa apenas que não considero correto presumir que o avanço tecnológico tornará automaticamente dispensável o trabalho dos profissionais envolvidos.

A discussão merece ser feita com seriedade, considerando tanto as possibilidades técnicas quanto as consequências para quem trabalha na área.

O livro, as adaptações e as oportunidades perdidas

Outro aspecto que considero importante é a relação entre o filme e o material literário que lhe deu origem.

O Bosque Selvagem adapta o primeiro volume da trilogia escrita por Colin Meloy e ilustrada por Carson Ellis. O livro original foi publicado em 2011. A série literária possui um universo amplo, e a adaptação para o cinema precisou selecionar os acontecimentos que caberiam em um longa-metragem.

Durante a cabine, ouvi comentários de pessoas que haviam lido os livros e que mencionavam diferenças entre a obra literária e o filme. Como não eram declarações verificadas diretamente com esses leitores para esta análise, não considero esses comentários suficientes para afirmar quais mudanças foram feitas ou por que determinados trechos ficaram de fora.

Ainda assim, a sensação de que algumas partes da história foram apresentadas de maneira abrupta não foi exclusiva da minha experiência. Também percebi comentários de outros espectadores sobre passagens que pareciam carecer de explicação.

As ressalvas à construção narrativa também aparecem em críticas publicadas por veículos internacionais. Em sua análise para o The Guardian, Peter Bradshaw elogiou a expressividade do stop-motion, mas questionou se o filme consegue esclarecer suficientemente as motivações da governante. Já Mark Kennedy, em uma crítica publicada pela Associated Press, apontou um desequilíbrio entre a ambição visual da produção e o desenvolvimento da história, além de questionar a violência e a maneira como o amadurecimento de Curtis é apresentado. As avaliações não anulam as qualidades do filme, mas mostram que a relação entre o trabalho técnico e a construção narrativa também foi objeto de debate entre os críticos.

A questão é que uma adaptação precisa fazer escolhas. Um livro pode dedicar páginas inteiras à construção de um personagem ou à explicação de um acontecimento, enquanto o filme precisa comunicar a mesma informação em poucos minutos. O desafio está em condensar a história sem comprometer sua compreensão.

Na minha percepção, algumas dessas transições poderiam ter sido trabalhadas melhor. Existem acontecimentos que surgem sem preparação suficiente, motivações que não ficam claras e regras do universo fantástico que poderiam ter sido explicadas de maneira mais eficiente.

Ao mesmo tempo, senti falta de uma distribuição diferente do tempo narrativo. Algumas cenas que considero desnecessárias poderiam ter sido reduzidas ou retiradas para dar espaço a explicações que ajudassem o público a compreender melhor a história.

Isso não significa que o filme precisasse reproduzir integralmente o livro. Significa que, diante das escolhas feitas, acredito que seria possível encontrar um equilíbrio melhor entre o que foi mantido, o que foi retirado e o que foi acrescentado.

Para quem leu a trilogia, as diferenças podem ser especialmente perceptíveis. Para quem não leu, algumas lacunas também podem interferir na experiência, porque a compreensão da história não deveria depender exclusivamente do conhecimento prévio do universo literário.

A dublagem brasileira e o trabalho por trás das vozes

A cabine de imprensa também permitiu conhecer um pouco mais do trabalho de Giulia Benite e Pedro Burgarelli na dublagem brasileira.

Giulia comentou sobre o nervosismo de participar de sua primeira dublagem e sobre o desafio de encontrar uma interpretação própria para Prue. A atriz explicou que recebe orientações da direção e tem contato com a dublagem original em inglês, mas que interpretar em português exige encontrar outras possibilidades emocionais.

Pedro, por sua vez, falou sobre a construção de Curtis e a tentativa de acrescentar elementos próprios à interpretação. Também demonstrou admiração pelo universo visual do filme e pelo trabalho de stop-motion.

Pelas minhas anotações da conversa, a gravação das falas de Giulia teria levado aproximadamente três dias, enquanto a de Pedro teria durado cerca de dois dias. Esses períodos dizem respeito às sessões de dublagem dos atores, não ao tempo de realização da animação como um todo.

É interessante perceber a diferença entre o tempo necessário para gravar as vozes e o trabalho de anos que envolve a construção visual de um filme dessa dimensão. A interpretação vocal é uma parte da produção, mas precisa se integrar a personagens que foram desenvolvidos, movimentados e fotografados ao longo de um processo muito mais extenso.

A experiência de assistir ao filme finalizado também trouxe uma questão interessante para os profissionais: a reação do público. Depois de acompanhar as mesmas cenas repetidamente durante a produção, algumas situações podem deixar de provocar a mesma reação em quem trabalhou nelas. Na cabine, os comentários dos participantes mostraram como é diferente reencontrar uma obra diante de uma plateia que a está vendo pela primeira vez.

Foto via Katarina R. Teixeira/Durante Cabine de Imprensa 20/10/2026

Uma trilha sonora que contribui para a experiência

A trilha sonora também merece destaque. Durante a sessão, uma espectadora chegou a perguntar qual era a música utilizada no filme, depois que os créditos foram interrompidos para dar lugar à entrevista com os profissionais.

A situação acabou gerando uma pequena confusão, mas também demonstrou como a música pode chamar a atenção de quem assiste. No meu caso, considero que a trilha funciona especialmente bem nas cenas da batalha final, ajudando a construir a intensidade do confronto.

A música contribui para o ritmo e para a atmosfera da narrativa, acompanhando as mudanças de tom entre os momentos de aventura, humor e tensão. É um dos elementos que ajudam a sustentar a experiência, mesmo quando algumas escolhas do roteiro não funcionam tão bem.

Uma animação com qualidades e questões que merecem discussão

No conjunto, considero O Bosque Selvagem uma animação interessante, com qualidades técnicas, personagens carismáticos e momentos de humor que funcionam. O trabalho com os animais, a personalidade de Curtis e Prue, a dimensão visual do bosque e a trilha sonora são aspectos que contribuem positivamente para a experiência.

Ao mesmo tempo, saí da sessão com a impressão de que o filme poderia ter aproveitado melhor seu próprio universo. A construção das regras mágicas, a relação entre os pais e a protagonista, as motivações de determinados personagens e algumas transições narrativas mereciam mais desenvolvimento.

Também considero que a combinação entre referências de fantasia, humor inspirado em animações dos anos 2000 e abordagens contemporâneas nem sempre encontra um equilíbrio satisfatório. Em alguns momentos, a história parece reunir elementos diferentes sem integrá-los completamente.

A comparação com As Crônicas de Nárnia foi uma das minhas principais impressões, especialmente pela maneira como Curtis é envolvido nos planos da mulher que governa o universo mágico e pela estrutura do conflito que conduz à batalha final. Não considero que a existência de elementos semelhantes seja suficiente, por si só, para comprovar uma cópia, mas acredito que as aproximações são relevantes para a análise.

Por fim, a dimensão técnica da produção merece reconhecimento. Realizar um filme dessa escala em stop-motion exige tempo, dedicação e a colaboração de profissionais de diferentes áreas. A utilização de efeitos visuais não diminui automaticamente esse trabalho, assim como a grandiosidade da produção não impede que determinadas decisões possam ser questionadas.

Para mim, O Bosque Selvagem é um filme que apresenta boas ideias e personagens capazes de conquistar o público, mas que deixa algumas oportunidades pelo caminho. Há uma aventura interessante, momentos visualmente impressionantes e personagens que funcionam, porém também existem lacunas que poderiam ter sido resolvidas com escolhas mais cuidadosas de roteiro e edição.

É justamente essa combinação que torna a experiência digna de discussão: não se trata de ignorar as qualidades da obra, mas de reconhecer que uma produção tecnicamente ambiciosa também pode ser questionada por suas escolhas narrativas.

Referências
BRADSHAW, Peter. “Wildwood review – Laika’s pleasingly old fashioned stop-motion magic-forest odyssey”. The Guardian, 11 out. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/film/2026/oct/11/wildwood-review-carey-mulligan-laika. Acesso em: 21 out. 2026.
KENNEDY, Mark. “Review: ‘Wildwood’ dazzles with stop-motion craft but gets lost in its story”. Associated Press, 20 out. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/d40b9525dd58371a11fc32ac2f645b90. Acesso em: 21 out. 2026.
PORTAL EXIBIDOR. “Novo trailer de ‘O Bosque Selvagem’ é divulgado”. 16 set. 2026. Disponível em: https://www.exibidor.com.br/noticias/industria/11923-novo-trailer-de-34o-bosque-selvagem34-e-divulgado. Acesso em: 21 out. 2026.
Créditos das imagens
Imagens de divulgação de O Bosque Selvagem cedidas pela Imagem Filmes por meio do material de imprensa do filme.
Fotografia da cabine de imprensa: Katarina R. Teixeira, 20 out. 2026.