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POLÍTICA

Eleições 2026: entenda o voto, a história e os dados por trás das escolhas políticas

Por Katarina Reis Teixeira  O que estamos escolhendo quando votamos? As eleições brasileiras envolvem uma quantidade enorme de informações...

 Eleições 2026: entenda o voto, a história e os dados por trás das escolhas políticas

Por Katarina Reis Teixeira 

O que estamos escolhendo quando votamos?

As eleições brasileiras envolvem uma quantidade enorme de informações, opiniões, e propostas. Em 2026, no primeiro turno, marcado para 4 de outubro, estarão em disputa os cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Se houver segundo turno nas disputas para presidente ou governador, a votação será realizada em 25 de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 158.765.543 eleitoras e eleitores estão aptos a votar neste pleito. (Tribunal Superior Eleitoral)

Foto via Szucinski/Getty Imagens/iStockphoto

O voto é obrigatório no Brasil para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos. Para jovens de 16 e 17 anos, pessoas analfabetas e maiores de 70, o voto é facultativo. A Constituição estabelece ainda que o sufrágio é universal e que o voto é direto, secreto e de igual valor. (Tribunal Superior Eleitoral)

Esse modelo é diferente do adotado em países como Estados Unidos e Portugal, onde o eleitor não é obrigado a comparecer às urnas. No Brasil, portanto, participar das eleições faz parte do exercício regular dos direitos e deveres eleitorais. A obrigatoriedade não significa, evidentemente, obrigação de escolher determinado candidato ou partido. Significa que o cidadão está inserido em um sistema eleitoral no qual a participação é prevista como regra.

É a partir daí que comecei a pensar nesta eleição de uma maneira um pouco diferente. Em vez de olhar apenas para os nomes que aparecem na televisão, nas redes sociais ou nos debates, vale entender o que efetivamente estamos escolhendo, quais são as atribuições de cada cargo, de onde vieram algumas das políticas que costumamos associar a determinados governos e quais resultados podem ser comparados de maneira objetiva.

O que estamos escolhendo?

Na urna eletrônica de 2026, a votação seguirá uma ordem específica: deputado federal, deputado estadual ou distrital, senador, governador e presidente. O eleitor terá de escolher candidatos para seis cargos. (Tribunal Superior Eleitoral)

Cada cargo funciona de uma maneira diferente.

Presidente e governador são eleitos pelo sistema majoritário. Para vencer no primeiro turno, a candidatura precisa obter mais da metade dos votos válidos. Se isso não acontecer, as duas candidaturas mais votadas disputam o segundo turno.

Senadores também são escolhidos pelo sistema majoritário, mas não existe segundo turno para o Senado. Em 2026, cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores.

Já deputados federais, estaduais e distritais são escolhidos pelo sistema proporcional. Nesse caso, o resultado não depende apenas da quantidade de votos individuais recebidos por cada candidato. Os votos destinados aos partidos e federações participam do cálculo das cadeiras, e a distribuição interna considera posteriormente a votação das candidaturas.

Isso explica por que a eleição para o Legislativo não pode ser analisada exatamente da mesma maneira que a eleição presidencial.

Também é importante lembrar a diferença entre voto branco e voto nulo. Nenhum dos dois é transferido para outro candidato. Para fins de cálculo eleitoral, são considerados votos válidos aqueles destinados às candidaturas e, no caso das eleições proporcionais, aqueles destinados a partidos e federações dentro das regras estabelecidas pela legislação.

Em 2026, o TSE reconheceu 12 candidaturas válidas à Presidência da República: Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Rui Costa Pimenta, Samara Martins, Romeu Zema, Hertz Dias, Edmilson Costa, Renan Santos, Wilson Grassi, Clariana Barão e Augusto Cury. O tribunal indeferiu o registro da chapa formada por Pablo Marçal e Leonardo Avalanche. (Tribunal Superior Eleitoral)

Os planos de governo registrados pelas candidaturas também estão disponíveis no sistema eleitoral. Consultá-los é uma forma de conhecer aquilo que cada chapa apresentou oficialmente, sem depender exclusivamente de interpretações feitas por outras pessoas. (Tribunal Superior Eleitoral)

O presidente não governa sozinho

Uma das maiores confusões nas eleições é atribuir ao presidente responsabilidades que pertencem a outros poderes ou níveis de governo.

O presidente é chefe do Poder Executivo federal. Entre suas atribuições estão a direção da administração federal, a nomeação de ministros, a condução da política externa, a participação no processo legislativo por meio da apresentação de projetos, a sanção ou veto de leis aprovadas pelo Congresso e a execução de políticas públicas federais.

Mas muitas decisões dependem do Congresso Nacional.

A Câmara dos Deputados e o Senado Federal participam da elaboração das leis, fiscalizam o Executivo, analisam o orçamento e exercem outras competências constitucionais. Projetos apresentados pelo presidente podem ser modificados, aprovados ou rejeitados pelos parlamentares.

Isso ajuda a entender o chamado presidencialismo de coalizão. Para aprovar parte significativa de sua agenda, o governo precisa construir apoio político no Congresso. Essa negociação faz parte do funcionamento do sistema, embora também gere discussões sobre distribuição de cargos, emendas parlamentares, alianças e critérios utilizados na formação das maiorias.

Os ministros também possuem papel importante porque são responsáveis pela condução das diferentes áreas da administração federal. A escolha dessas equipes pode influenciar diretamente a maneira como uma política pública é planejada e executada.

Governadores administram os estados e o Distrito Federal. Prefeitos administram os municípios. Algumas áreas, como saúde, educação e infraestrutura, envolvem competências compartilhadas entre União, estados e municípios.

Por isso, quando um candidato promete resolver determinado problema, uma das perguntas mais importantes é identificar qual órgão ou nível de governo possui competência para executar aquela medida e quais instrumentos legais e financeiros serão necessários.

Formação, experiência e capacidade de governar

A Constituição estabelece requisitos mínimos para que uma pessoa possa disputar cargos eletivos. Entre eles estão nacionalidade brasileira, exercício dos direitos políticos, alistamento eleitoral, domicílio eleitoral, filiação partidária e idade mínima correspondente ao cargo. Não existe exigência constitucional de diploma universitário para ser presidente da República. (Tribunal Superior Eleitoral)

A ausência de exigência de diploma não impede que formação acadêmica, experiência profissional e trajetória administrativa sejam consideradas pelo eleitor.

Um presidente precisa tomar decisões sobre economia, saúde, educação, segurança, relações internacionais, infraestrutura, meio ambiente, energia, defesa e administração pública. Nenhuma pessoa domina tecnicamente todas essas áreas. Por isso, além do conhecimento individual, importa observar a capacidade de formar equipes, escolher ministros e assessores, interpretar informações técnicas e trabalhar com instituições diferentes.

Uma proposta também precisa ser analisada em relação à sua execução. Se depender de uma lei, será necessário apoio no Congresso. Se exigir recursos, é preciso identificar a fonte de financiamento. Se depender de estados ou municípios, é necessário verificar como essa articulação será feita.

Foto via al.sp.gov.br

Quem criou aquilo que hoje associamos a determinados governos?

A história política brasileira é frequentemente apresentada como se grandes políticas públicas tivessem sido inventadas e executadas por uma única pessoa. Na prática, muitas delas são resultado de processos que atravessam diferentes governos.

A Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, foi instituída em 1º de maio de 1943, durante o governo Getúlio Vargas, pelo Decreto-Lei nº 5.452. O texto consolidou normas trabalhistas que já vinham sendo criadas anteriormente. O processo contou com participação do ministro do Trabalho Alexandre Marcondes Filho.

O Plano Real também foi resultado de uma construção anterior à sua implementação. A estabilização da moeda ocorreu em 1994, durante o governo Itamar Franco, quando Fernando Henrique Cardoso era ministro da Fazenda. A formulação econômica foi influenciada por debates anteriores sobre inflação inercial, incluindo trabalhos associados a Pérsio Arida e André Lara Resende. A implementação do plano aconteceu sob o governo Itamar, com FHC à frente do Ministério da Fazenda.

O SUS tem uma trajetória ainda mais coletiva. Sua construção está ligada ao movimento da Reforma Sanitária Brasileira, à 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, à Constituição de 1988 e às Leis nº 8.080 e 8.142, de 1990. Sérgio Arouca foi uma das figuras centrais desse processo, mas não seria correto tratar o SUS como criação individual.

Essa perspectiva histórica ajuda a separar quatro etapas que muitas vezes são confundidas: a ideia, a formulação, a aprovação e a implementação de uma política pública.

Direita, esquerda e centro

As categorias direita, esquerda e centro também precisam ser usadas considerando o contexto histórico.

Os termos têm origem na organização política da Revolução Francesa e passaram a ser utilizados posteriormente em diferentes países para representar posições políticas. No Brasil, seus significados mudaram conforme o período histórico.

Hoje, de maneira geral, posições de esquerda costumam estar associadas a uma atuação mais ampla do Estado na proteção social e na redução de desigualdades, enquanto posições de direita tendem a dar maior ênfase a temas como propriedade privada, mercado, segurança e ordem, embora existam muitas combinações entre essas posições. O centro pode reunir diferentes correntes e propostas intermediárias.

Na prática, um partido pode defender maior presença do Estado na saúde e, simultaneamente, defender políticas econômicas mais liberais. Um candidato pode defender programas sociais e uma agenda de segurança mais rígida. Outro pode defender privatizações em determinados setores e manutenção de empresas públicas em outros.

Por isso, classificar um candidato politicamente pode ajudar a localizar sua posição geral, mas não substitui a análise de suas propostas específicas.

Por que o Brasil usa urna eletrônica?

A adoção da urna eletrônica ocorreu gradualmente a partir dos anos 1990. A mudança buscou reduzir problemas associados à votação e à apuração manual, além de tornar o processo mais rápido e padronizado.

Isso não significa que o voto em papel seja automaticamente inseguro ou que a urna eletrônica seja um sistema sem riscos.

O voto em papel pode apresentar problemas de transporte, armazenamento, interpretação, contagem e manipulação física. Um sistema eletrônico possui outros riscos, relacionados a equipamentos, software, segurança digital e cadeia de custódia.

A discussão, portanto, precisa considerar quais mecanismos existem para detectar e fiscalizar possíveis problemas.

A Justiça Eleitoral utiliza procedimentos de auditoria e fiscalização que incluem, entre outros mecanismos, testes públicos de segurança, verificação de assinatura digital, análise do código-fonte, boletins de urna e procedimentos de auditoria após a votação. A urna também gera registros que permitem verificar a correspondência entre o resultado divulgado e os votos registrados.

Isso não significa afirmar que qualquer tecnologia seja absolutamente infalível. Significa avaliar os mecanismos utilizados para reduzir riscos e permitir fiscalização.

A mesma lógica vale para uma eventual votação pela internet ou pelo celular. Um sistema remoto poderia reduzir determinados custos logísticos, mas introduziria outros problemas, como segurança do dispositivo pessoal, autenticação, malware, ataques de rede e, principalmente, garantia do sigilo e da liberdade do voto dentro de um ambiente doméstico. Não seria simplesmente uma questão de substituir uma tecnologia por outra.


Foto via www.tre-ac.jus.br


O que os números econômicos realmente mostram?

Crescimento econômico, inflação, desemprego, renda, dívida pública, reservas internacionais, investimentos e pobreza são influenciados por decisões de governo, mas também por acontecimentos internacionais, preços de commodities, guerras, crises financeiras, política monetária, condições climáticas e decisões tomadas em períodos anteriores. Por isso, uma comparação histórica precisa considerar períodos mais longos.

Também é necessário distinguir crescimento econômico de outros resultados. Um país pode crescer e manter desigualdade elevada. Pode reduzir o desemprego e continuar com baixa produtividade. Pode aumentar sua produção e manter problemas de infraestrutura. Pode registrar reservas internacionais elevadas e, simultaneamente, ter uma dívida pública importante.  Esses indicadores não se anulam, eles mostram partes diferentes da economia.

O período militar e o chamado “milagre econômico”

O período do regime militar, entre 1964 e 1985, é frequentemente utilizado em discussões políticas como exemplo de crescimento econômico. De fato, o Brasil registrou taxas elevadas de crescimento durante o chamado “milagre econômico”, principalmente entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970. Houve expansão industrial, grandes investimentos em infraestrutura e crescimento expressivo do PIB.

O período também foi marcado por concentração de renda, forte participação estatal na economia. Além dos indicadores econômicos, existia uma estrutura política completamente diferente. O regime foi marcado por ausência de eleições presidenciais diretas durante grande parte de sua duração.

É possível analisar separadamente os resultados econômicos de determinados anos e as características institucionais do regime. 

Corrupção e comparação entre governos

Corrupção é outro assunto que exige distinções. Uma denúncia, ou investigação, não é uma condenação.

Ao analisar casos de corrupção, é importante identificar o estágio do processo, a decisão judicial, o valor efetivamente reconhecido como prejuízo, os responsáveis identificados e eventual recuperação de recursos. E distinguir responsabilidade individual de responsabilidade administrativa ou política. O fato de alguém fazer parte de um governo não significa automaticamente que seja responsável por todo ilícito cometido dentro daquela estrutura, a não ser que haja coligações, porque, mecanismos de controle e fiscalização existem justamente para identificar responsabilidades quando elas forem comprovadas.

A escolha de um governo não afeta apenas quem está diante da urna, mas milhões de pessoas. Por isso, vale observar como estão o poder de compra, o acesso à saúde, a qualidade da educação, o emprego, a segurança e os serviços públicos. Também é preciso olhar para o histórico de quem governou ou pretende governar: o que prometeu, o que efetivamente entregou, como administrou os recursos públicos e quais casos de irregularidade ou corrupção foram comprovados. Uma pessoa pode gostar de determinado político, partido ou corrente ideológica, mas isso não deveria substituir a análise dos resultados.

Também considero importante evitar que a identificação política venha antes dos fatos. Já vi situações em que pessoas são questionadas sobre leis, decisões, crimes ou mudanças no país e respondem de acordo com o lado político com o qual já se identificam, mesmo sem saber quem realmente tomou aquela decisão ou qual foi o contexto. Quando existe uma ligação pessoal, ideológica ou emocional muito forte, a tendência é interpretar tudo a partir desse filtro. Por isso, antes de votar, considero importante pesquisar, comparar fontes, entender quem propôs determinada medida, quem a aprovou, quais foram seus resultados e quais responsabilidades foram efetivamente comprovadas. Votar não precisa significar “gostar de política”; significa perceber que decisões políticas interferem diretamente na própria vida e na vida de quem está ao redor. No fim, quando saúde, educação, segurança, emprego e poder de compra melhoram ou pioram de forma ampla, isso também acaba refletindo na vida de cada cidadão.

Transferência de renda e mobilidade social

Programas de transferência de renda fazem parte da política de proteção social brasileira e podem atender famílias em situação de pobreza e vulnerabilidade. Existe, porém, uma discussão mais ampla sobre como combinar proteção imediata com mobilidade social.

Uma transferência pode ajudar uma família a comprar alimentos, manter uma criança na escola ou enfrentar uma situação de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, políticas de longo prazo podem atuar sobre educação, qualificação profissional, creches, saúde, transporte, acesso ao crédito, formalização do trabalho e produtividade.

A discussão não precisa ser colocada como uma escolha entre “dar dinheiro” e “fazer as pessoas trabalharem”. O desafio é entender quais políticas reduzem a pobreza no curto prazo e quais aumentam as possibilidades de autonomia econômica no longo prazo.

Há também um aspecto de descontentamento social que não deveria ser ignorado. Para uma parcela da população, existe a percepção de que alguns benefícios são distribuídos sem critérios suficientemente claros ou sem uma contrapartida visível. Esse sentimento aparece até em expressões populares depreciativas, como quando o Bolsa Família é chamado de “bolsa nóia”, associando o benefício, de maneira generalizada e muitas vezes injusta, ao consumo de drogas ou à ausência de trabalho. Ainda que esse tipo de expressão carregue preconceitos e simplificações, sua existência revela uma desconfiança que também faz parte do debate público.

Uma discussão semelhante ocorre em torno do auxílio-reclusão, muitas vezes chamado popularmente de “bolsa para bandido”. Essa descrição, entretanto, não corresponde exatamente ao funcionamento do benefício: o dinheiro não é entregue ao preso, mas aos seus dependentes, e somente quando o preso possuía qualidade de segurado da Previdência, atendia aos critérios de baixa renda e aos demais requisitos legais. Mesmo conhecendo essa distinção, pode permanecer um questionamento moral para parte da sociedade: por que o Estado deve garantir determinada proteção econômica à família de alguém que praticou um crime, especialmente quando a vítima e sua família também podem enfrentar consequências financeiras, psicológicas e sociais?

Esse incômodo merece ser discutido sem transformar os familiares do condenado em responsáveis pelo crime cometido. A justificativa da proteção social é justamente evitar que crianças, cônjuges ou outros dependentes sejam punidos economicamente por um ato que não cometeram. Ao mesmo tempo, é legítimo discutir se o Estado oferece proteção suficiente às vítimas e às suas famílias e se existe equilíbrio entre políticas de assistência, responsabilização e reparação.

Também é importante esclarecer a ideia de que uma pessoa presa “perde todos os seus direitos”. No sistema jurídico brasileiro, a condenação pode retirar ou restringir determinados direitos, principalmente a liberdade, mas não elimina todos os direitos fundamentais. A Constituição assegura, por exemplo, o respeito à integridade física e moral das pessoas presas, e a Lei de Execução Penal estabelece outros direitos durante o cumprimento da pena.

Outro exemplo recente que pode causar estranhamento é a regra sobre prisões no período eleitoral. Nas eleições de 2026, o Código Eleitoral determina que eleitores não sejam presos desde cinco dias antes da votação até 48 horas após o encerramento do pleito, mas existem exceções, como flagrante delito, sentença condenatória por crime inafiançável e desrespeito a salvo-conduto. Para o primeiro turno de 4 de outubro de 2026, essa restrição começou em 29 de setembro. No caso dos candidatos, o período começa 15 dias antes, sendo também admitida prisão em flagrante. Portanto, não se trata simplesmente de permitir que qualquer pessoa cometa crimes livremente até a eleição, embora a existência dessa proteção legal possa gerar questionamentos sobre sua extensão e necessidade.

A discussão, portanto, não precisa ser colocada apenas como uma escolha entre “dar dinheiro” e “fazer as pessoas trabalharem”, nem como uma oposição simples entre assistência social e punição. O desafio é entender quais políticas reduzem a pobreza no curto prazo, quais aumentam as possibilidades de autonomia econômica no longo prazo e quais critérios conseguem transmitir à sociedade uma percepção de justiça e responsabilidade.

Quantas famílias entram e saem dos programas, sua evolução de renda, escolaridade, empregabilidade e condições de vida. Também seria relevante analisar a clareza dos critérios de acesso, os mecanismos de fiscalização, o impacto sobre os dependentes e a proteção oferecida às vítimas. Assim, o debate deixa de ser apenas sobre quem “merece” ou não receber dinheiro e passa a tratar de uma questão mais ampla: como construir uma política social que proteja quem está vulnerável sem abandonar a responsabilidade individual, a reparação às vítimas e a busca por autonomia econômica.

Ao meu ver, a assistência social deve servir como uma base para que famílias em situação de pobreza consigam avançar, garantindo necessidades essenciais como alimentação e educação, mas também criando condições para autonomia econômica. O objetivo não deveria ser manter essas famílias dependentes do auxílio por tempo indeterminado, e sim usar esse apoio como um instrumento de transição, junto com qualificação, emprego e oportunidades de geração de renda, para que possam melhorar de vida e, quando possível, deixar de depender do benefício.

SUS, filas e prioridades

O sistema público de saúde brasileiro é, ao meu ver, uma estrutura necessária. O fato de uma pessoa poder procurar atendimento sem precisar pagar diretamente por aquilo é uma característica muito importante, principalmente para quem não tem condições de arcar com um plano de saúde ou atendimento particular.

Ao mesmo tempo, isso não significa que o sistema funcione de maneira ideal. Existem relatos constantes de longas filas de espera, falta de leitos, falta de profissionais, estruturas precárias e pessoas aguardando atendimento em corredores. Em muitos casos, principalmente quando o problema exige acompanhamento mais longo, exames, cirurgias ou tratamentos especializados, o acesso pode se tornar demorado e desgastante.

Por isso, não acho suficiente dizer apenas que “o Brasil tem SUS”. A questão é saber se, quando uma pessoa realmente precisa, ela consegue usufruir desse direito com qualidade, rapidez e estrutura adequada.

Existe uma discussão sobre a forma como os recursos públicos são distribuídos e utilizados. Há casos de desvios, fraudes, problemas de gestão e falta de investimento adequado, e tudo isso pode impactar diretamente a qualidade do atendimento. Quando faltam leitos, profissionais, equipamentos ou estrutura, quem mais sofre é justamente a população que depende exclusivamente do sistema público.

Também é importante separar os diferentes tipos de atendimento. Uma emergência, um transplante, uma cirurgia eletiva ou um procedimento específico não necessariamente fazem parte da mesma fila ou utilizam exatamente a mesma estrutura, mesmo assim, acho legítimo discutir prioridades, capacidade de atendimento e onde os recursos estão sendo aplicados.

Outro ponto é que muitas pessoas, quando têm condições, acabam recorrendo a planos de saúde justamente porque acreditam que terão mais rapidez, estrutura ou conforto. Isso cria um questionamento importante: se a saúde pública é um direito de todos, por que tantas pessoas sentem que precisam recorrer ao sistema privado para ter um atendimento considerado adequado?

Eu não vejo o SUS como algo que simplesmente “não funciona”, porque ele atende milhões de pessoas e é essencial para quem não teria outra alternativa. Mas também não acho que a existência dele, por si só, seja suficiente para encerrar a discussão. O sistema precisa ser analisado pela qualidade do atendimento que entrega, pelo tempo de espera, pela estrutura disponível e pela forma como os recursos públicos são administrados. O direito existe, mas a questão principal é saber se ele está sendo garantido na prática.

Quanto ganham os políticos e por que existe tanta estrutura?

A remuneração dos agentes políticos varia conforme o cargo e a esfera de governo. Em 2026, o subsídio bruto mensal do presidente da República, do vice-presidente, dos ministros de Estado, dos deputados federais e dos senadores é de R$ 46.366,19. Serviços e Informações do Brasil Em São Paulo, por exemplo, um deputado estadual recebe R$ 34.774,64 por mês, enquanto o governador recebe R$ 36.301,53. Alesp Já prefeitos e vereadores não possuem um valor único nacional, porque a remuneração varia conforme o município.

Esses valores também precisam ser separados das despesas destinadas ao exercício do mandato. No caso de um deputado federal, por exemplo, além do subsídio pessoal, existe em 2026 uma verba de gabinete de até R$ 165.806,07 mensais, destinada ao pagamento de até 25 secretários parlamentares. Existe ainda a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, utilizada para despesas como passagens, escritório, combustível e outros custos do mandato; para deputados eleitos por São Paulo, o limite mensal atual é de R$ 48.727,46. Esses recursos não são salário pessoal do parlamentar e precisam ser tratados separadamente. Portal da Câmara dos Deputados

A diferença em relação à renda da maior parte da população é expressiva. O salário mínimo nacional em 2026 é de R$ 1.621, enquanto o subsídio federal de R$ 46.366,19 corresponde a aproximadamente 28 salários mínimos. Planalto Isso levanta um questionamento legítimo: qual deve ser a remuneração adequada para alguém que exerce uma função pública de representação? O valor elevado é necessário para garantir independência, dedicação e atrair pessoas qualificadas ou poderia ser aproximado da realidade econômica da população que esses representantes governam?

Também surge outra pergunta: seria melhor tratar a política de maneira mais próxima de um serviço público temporário, com remuneração e regras previdenciárias semelhantes às aplicadas ao trabalhador comum? Nesse ponto existe uma informação importante: para os novos deputados federais, a regra já mudou. Parlamentares que nunca participaram do antigo Plano de Seguridade Social dos Congressistas são, em regra, contribuintes obrigatórios do Regime Geral de Previdência Social, o INSS, salvo situações específicas de servidores públicos vinculados a regime próprio. O antigo plano parlamentar permanece apenas para quem já possuía direito de participação antes das mudanças previdenciárias. Especiais da Câmara

O quanto é razoável pagar, quais benefícios realmente são necessários, como esses recursos são fiscalizados e se o resultado entregue à sociedade corresponde ao custo da estrutura. Esse contraste fica ainda mais relevante diante de casos de corrupção, desvio de recursos e uso irregular de dinheiro público. Uma remuneração elevada não garante, por si só, integridade ou qualidade na gestão. Da mesma forma, reduzir salários não garantiria automaticamente melhores representantes. O ponto que permanece é outro: se o cargo é financiado pela população, é legítimo que a população questione quanto ele custa e o que recebe em troca.

Como as campanhas são financiadas?

As campanhas brasileiras utilizam recursos públicos e privados dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral.

Em 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral, recebeu aproximadamente R$ 4,9 bilhões, distribuídos aos partidos segundo critérios legais. O TSE também manteve para as eleições de 2026 os limites de gastos utilizados em 2022. (Tribunal Superior Eleitoral)

Os limites variam conforme o cargo e a circunscrição. Também existem regras para utilização de recursos próprios, doações permitidas e bens e serviços estimáveis em dinheiro.

O Fundo Partidário é diferente do Fundo Eleitoral. O primeiro está relacionado ao funcionamento das legendas; o segundo é destinado ao financiamento das campanhas eleitorais.

O TSE disponibiliza ainda informações de prestação de contas, incluindo receitas, despesas, fornecedores e outras informações financeiras das candidaturas. (Tribunal Superior Eleitoral)

Olhar também para quem governa mais perto

A política nacional costuma concentrar grande parte da atenção, mas muitos problemas que aparecem na rotina das pessoas dependem de estados e municípios.

Em São Paulo, por exemplo, transporte coletivo municipal, creches, zeladoria urbana, iluminação, coleta de lixo e parte da atenção básica em saúde são atribuições relacionadas à administração municipal. Segurança pública, Polícia Civil, Polícia Militar, sistema prisional e rede estadual de ensino estão principalmente sob responsabilidade do governo estadual. A União, por sua vez, administra políticas nacionais e possui competências próprias em áreas como Previdência, política econômica, relações internacionais, legislação federal e programas nacionais.

Comparar administrações exige indicadores diferentes, uma prefeitura pode ser analisada por transporte, educação infantil, saúde básica, saneamento, arrecadação, execução orçamentária e infraestrutura urbana. Um governo estadual pode ser avaliado também por segurança, educação estadual, saúde de média e alta complexidade, infraestrutura e situação fiscal. Para o governo federal, entram outros indicadores, como inflação, emprego, crescimento, dívida, investimento, reservas internacionais e políticas nacionais.

O potencial econômico do Brasil

O Brasil reúne território extenso, população numerosa, recursos naturais, produção agrícola, indústria, energia, biodiversidade, universidades, empresas e um mercado consumidor grande. Essas características oferecem condições para desenvolvimento, mas não garantem que ele aconteça. Educação, produtividade, infraestrutura, segurança, ambiente de negócios, capacidade de inovação, qualidade dos serviços públicos e complexidade tributária influenciam a capacidade de transformar recursos em desenvolvimento.

A carga tributária também precisa ser vista, porque não digo apenas que “o Brasil paga muito imposto”, direciono o olhar para que você cidadão de bem observe os tributos compõem o cálculo, quem efetivamente suporta essa carga, quanto é pago direta ou indiretamente e quais serviços públicos são financiados por esses recursos. Também existe o problema do custo de conformidade: empresas e pessoas precisam gastar tempo e recursos para cumprir obrigações tributárias e administrativas.

Em 2025, a carga tributária bruta brasileira correspondeu a 32,40% do PIB, considerando a arrecadação da União, dos estados e dos municípios. Isso não significa que cada pessoa entregue exatamente 32,40% de sua renda ao governo, mas mostra o peso dos tributos dentro da economia brasileira. Serviços e Informações do Brasil

Para quem empreende, essa conta também aparece diretamente na contratação. Uma empresa submetida às regras gerais pode recolher 20% de contribuição previdenciária patronal sobre a folha, além de mais 1%, 2% ou 3%, dependendo do risco da atividade. Há ainda, em regra, o depósito de 8% do salário do funcionário no FGTS. Serviços e Informações do Brasil E isso é apenas parte do custo: ainda existem férias, décimo terceiro, benefícios, tributos e outras obrigações, dependendo da empresa e do regime tributário.

Por isso, quando se diz que um funcionário custa mais para uma empresa do que aquilo que ele recebe no salário, existe uma realidade por trás dessa afirmação. Obviamente isso varia muito conforme o setor e o regime da empresa, mas o custo de uma contratação formal pode ficar consideravelmente acima do salário bruto. E isso também entra na decisão de quem está tentando manter ou ampliar um negócio.

Muitas vezes, o empresário precisa escolher entre investir na própria empresa, melhorar a estrutura ou contratar mais pessoas. Em alguns casos, pode acabar preferindo contratar alguém com menos experiência e treiná-lo internamente porque não consegue oferecer a remuneração necessária para atrair um profissional mais qualificado. Do outro lado, esse profissional capacitado também sente que estudou, se preparou e ainda assim não encontra uma remuneração compatível com aquilo que sabe fazer.

Enquanto isso, o trabalhador recebe o salário, compra comida, paga aluguel, energia, transporte, impostos e outras despesas, e percebe que sobra cada vez menos espaço para consumo ou investimento pessoal. Em julho de 2026, o rendimento médio real do trabalhador ocupado no Brasil era de R$ 3.762, segundo o IBGE. IBGE Isso é uma média nacional, então obviamente não representa a realidade de todas as famílias.

Também vejo essa questão muito ligada ao crédito e ao parcelamento. Já entrei em shopping no Brasil com lojas de marcas de luxo e encontrei produtos sendo vendidos em muitas parcelas. Em lugares semelhantes que já visitei na Europa, percebi uma dinâmica diferente. É uma observação pessoal, não uma comparação estatística entre países, mas me fez pensar em como o parcelamento está incorporado ao consumo brasileiro.

Às vezes não é simplesmente porque a pessoa “não tem medo de dívida”. É porque pagar parcelado se torna a única maneira de adquirir alguma coisa que o salário mensal não comporta à vista. E os dados mostram que o endividamento das famílias permanece elevado: em março de 2026, ele estava em 49,8% da renda acumulada em 12 meses, e cerca de 29,3% da renda mensal estava comprometida com o pagamento de dívidas. 

Isso também me faz pensar nas pessoas que juntam dinheiro, vendem aquilo que construíram e deixam o Brasil para recomeçar em outro país, muitas vezes aceitando até empregos de salário mínimo e enfrentando outra língua, outra cultura e dificuldades de adaptação. Por quê? Em muitos casos, porque acreditam que terão mais segurança econômica, oportunidades ou poder de compra. Isso não significa que qualquer país estrangeiro automaticamente ofereça uma vida melhor, porque custo de moradia, impostos, saúde e outros gastos também variam muito. Mas o fato de tantas pessoas considerarem essa mudança já levanta uma questão importante sobre as condições oferecidas aqui.

O Brasil é uma terra rica e possui condições enormes para crescer. O questionamento é por que essa riqueza tantas vezes parece distante da vida de quem trabalha e produz. O empresário sente o peso de manter uma empresa e gerar emprego; o trabalhador sente que seu salário não acompanha aquilo que precisa pagar; e os dois ainda convivem com uma estrutura tributária e administrativa complexa.

Por isso, para mim, a discussão não deveria terminar em “o Brasil é rico” ou “o brasileiro paga muito imposto”. A pergunta é outra: como essa riqueza está sendo administrada e transformada em qualidade de vida, poder de compra, bons empregos e condições para que empresas também consigam crescer? Porque um país pode ter tudo para prosperar e, ainda assim, tornar difícil a vida de quem nasceu, trabalha e tenta construir alguma coisa dentro dele.

ONGs, recursos estrangeiros e exploração econômica

O Senado realizou uma CPI para investigar organizações não governamentais e organizações da sociedade civil de interesse público, inclusive questões relacionadas a recursos públicos e estrangeiros. A existência da CPI, porém, não permite concluir que todas as ONGs estrangeiras atuem de forma irregular.

O universo das organizações da sociedade civil é amplo e inclui entidades de assistência social, saúde, educação, cultura, religião, meio ambiente e diversas outras áreas. Os dados de financiamento são distribuídos por diferentes bases, e não existe um único número que permita afirmar quanto todo o setor recebe do exterior.

Quando existe uma investigação específica, o caso deve ser analisado individualmente, identificando a organização, a origem do recurso, o contrato, o objeto do gasto e a eventual irregularidade. O mesmo vale para investimento estrangeiro. Empresas internacionais podem investir no Brasil, comprar participação em empresas brasileiras ou operar em setores como indústria, energia, serviços e mineração, isso faz parte da economia internacional.

Prisão e direito ao voto

No Brasil, pessoas presas provisoriamente ainda podem votar porque não possuem condenação criminal definitiva. Já quem tem condenação transitada em julgado pode ter os direitos políticos suspensos enquanto durarem os efeitos da condenação. É justamente aí que surge, para mim, um questionamento: até que ponto uma pessoa privada de liberdade deve continuar participando das decisões políticas do país nas mesmas condições de quem está em liberdade, trabalhando, pagando impostos e cumprindo suas obrigações sociais?

Não se trata de retirar direitos humanos básicos de quem está preso, mas de discutir quais direitos políticos devem permanecer durante esse período e em que momento devem ser recuperados. Isso se torna ainda mais complexo porque o próprio sistema prisional brasileiro enfrenta problemas de estrutura, superlotação e dificuldade de reabilitação.

Também existe uma proteção específica no período eleitoral. Em 2026, eleitoras e eleitores não podem ser presos desde cinco dias antes da votação até 48 horas depois do encerramento da eleição, salvo em casos como flagrante delito, sentença condenatória por crime inafiançável ou desrespeito a salvo-conduto. No primeiro turno, essa regra vale de 29 de setembro a 6 de outubro. A finalidade é proteger a liberdade do voto contra prisões arbitrárias, mas a regra também levanta questionamentos sobre seus limites e exceções. Tribunal Superior Eleitoral

Para mim, essa discussão deveria vir acompanhada de outra: o Brasil tem hoje um sistema capaz não apenas de prender, mas de avaliar, punir e realmente reabilitar essas pessoas antes de devolvê-las plenamente à sociedade e ao exercício de todos os seus direitos políticos?

Os mesários e a estrutura da eleição

Em 2026, o TSE trabalha com cerca de 1,9 milhão de mesárias e mesários e mais de 500 mil seções eleitorais. São pessoas responsáveis por atividades como identificação do eleitor, organização da seção, procedimentos de votação e encerramento dos trabalhos.

Meu avô já atuou como mesário diversas vezes e sempre gostou dessa experiência. É uma lembrança familiar que me faz pensar em como a eleição depende de uma quantidade enorme de pessoas que não aparecem nas propagandas nem nos debates, mas participam diretamente da realização do processo eleitoral.

Além dos mesários, existe toda uma estrutura de servidores da Justiça Eleitoral, transporte, segurança, tecnologia, fiscalização e apuração. 

Foto via goias246.com

O papel dos debates

Os debates presidenciais são uma das ferramentas disponíveis para o eleitor conhecer melhor as candidaturas. Eles não substituem a leitura dos planos de governo nem a análise do histórico dos candidatos, mas permitem observar a interação direta entre adversários e a maneira como cada um responde a perguntas, críticas e temas diferentes.

A participação dos candidatos, porém, é facultativa. O TSE reafirmou isso em decisão relacionada ao debate da Globo de 1º de outubro de 2026. A ausência faz com que o candidato perca a oportunidade de participar daquela rodada, mas não existe uma obrigação jurídica de comparecimento. (Agência Brasil)

O primeiro debate presidencial de 2026, realizado pela Band em 23 de agosto, teve a participação de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não participaram. O debate previsto pela Record para 27 de setembro foi cancelado depois que Lula e Flávio Bolsonaro informaram que não participariam.

Já o debate da Globo, previsto para 1º de outubro, acabou não sendo realizado. A situação envolveu decisões judiciais relacionadas às regras de participação e à possibilidade de exibição do espaço reservado a um candidato ausente. O TSE determinou que a Globo não exibisse a cadeira vazia destinada a Lula e afirmou que os demais candidatos não poderiam simular perguntas dirigidas a ele. Flávio Bolsonaro também anunciou sua ausência. (Agência Brasil)

Esses episódios fizeram com que o eleitor tivesse menos oportunidades de acompanhar determinadas candidaturas em confrontos diretos. Por isso, além dos debates, entrevistas completas, planos de governo, histórico político e registros oficiais continuam sendo fontes importantes para a análise.

Política nas redes sociais

Vídeos curtos, podcasts, transmissões ao vivo, grupos de mensagens e redes sociais permitem que candidatos alcancem diretamente grandes públicos sem depender exclusivamente de televisão, rádio ou jornais.

Isso ampliou as possibilidades de comunicação, mas também aumentou a circulação de informações fora de contexto, conteúdos antigos apresentados como atuais, montagens e informações falsas.

A inteligência artificial acrescenta outra camada ao problema. Imagens, vozes e vídeos sintéticos podem ser produzidos com aparência cada vez mais convincente. Por isso, antes de compartilhar um conteúdo político, vale verificar a data, procurar a publicação original, assistir ao trecho completo quando possível e comparar a informação com fontes independentes.

Não é necessário limitar a pesquisa a uma única fonte de informação. Pelo contrário: comparar fontes diferentes ajuda a perceber quando uma informação é fato documentado, interpretação, opinião ou acusação.

Monarquia, República e Presidencialismo

O Brasil nem sempre foi uma República presidencialista. Após a independência, em 1822, o país permaneceu uma monarquia até 1889, quando a República foi proclamada. A Constituição de 1891 estabeleceu o presidencialismo republicano. Houve ainda um período parlamentarista entre 1961 e 1963, durante a crise política que se seguiu à renúncia de Jânio Quadros e à posse de João Goulart.

Em 1993, os brasileiros participaram de um plebiscito nacional que apresentou duas escolhas diferentes: República ou Monarquia e Presidencialismo ou Parlamentarismo. A maioria optou pela República e pelo Presidencialismo.

O sistema político brasileiro, portanto, passou por diferentes formatos e chegou ao modelo atual por meio de processos históricos e decisões institucionais.

Por que o voto é secreto?

O sigilo do voto existe para proteger a liberdade de escolha. A história eleitoral brasileira inclui períodos marcados por coronelismo, coerção, compra de votos e influência de grupos políticos locais. Se fosse possível comprovar em quem uma pessoa votou, seria mais fácil condicionar dinheiro, emprego, benefício ou favor à escolha eleitoral. 

É por isso que a compra de votos não é apenas uma questão de receber dinheiro em troca de um número na urna. Ela compromete a liberdade de escolha e a própria lógica do voto secreto.

Foto de1955, eleitora vota para presidente da República, no Rio/Arquivo Nacional

Votar por identificação política, favor ou proposta

É possível que diferentes eleitores cheguem a conclusões diferentes depois de analisar as mesmas informações. Isso faz parte de uma sociedade plural.

Uma pessoa pode priorizar segurança. Outra pode considerar saúde mais importante. Outra pode colocar educação ou emprego como prioridade. Alguém pode considerar responsabilidade fiscal essencial, enquanto outro eleitor pode dar mais peso à redução da desigualdade.

Não existe uma fórmula única que determine quais prioridades cada cidadão deve ter, mas, é possível verificar se uma proposta é juridicamente possível, quanto pode custar, de quem depende e se existe experiência anterior que permita avaliar seus resultados.

Também é possível pesquisar o histórico do candidato, as pessoas que compõem sua equipe, seu partido, suas alianças e sua atuação anterior.

O que observar antes de votar?

Eu começaria pelos planos de governo e pelo histórico de cada candidatura. Depois, compararia as propostas para temas que considero fundamentais: educação, saúde, segurança, emprego, infraestrutura, impostos, desenvolvimento econômico, assistência social, meio ambiente e funcionamento das instituições.

Verificaria quais propostas dependem de aprovação do Congresso, quais dependem de orçamento e quais poderiam ser executadas diretamente pelo Poder Executivo.

Outra questão importante é a equipe. Um candidato à Presidência não administra pessoalmente todas as políticas públicas. Ministros, secretários, assessores, órgãos técnicos e instituições federais participam da execução. Vale olhar também a prestação de contas das campanhas e para os recursos recebidos e gastos.

No caso de informações negativas, procuraria distinguir denúncia, investigação, acusação, condenação e decisão definitiva. No caso de informações positivas, faria uma verificação semelhante: promessa não é resultado, e anúncio não é necessariamente execução.

Foto via Breno Carvalho/Agência O Globo/12-05-2023

O que fica depois da eleição?

A eleição escolhe pessoas para ocupar determinados cargos, mas a relação do cidadão com a política não termina na votação. O acompanhamento posterior envolve orçamento, gastos públicos, nomeações, votações no Congresso, a atuação de deputados e senadores, consultar dados de transparência, acompanhar sessões legislativas e verificar como os representantes votaram em determinadas matérias.

Para mim, esse acompanhamento é especialmente importante porque muitas diferenças entre governos só aparecem depois que uma proposta deixa de ser discurso de campanha e passa a ser uma política pública que precisa de orçamento, regulamentação e execução.

No momento de votar, eu procuraria responder algumas perguntas básicas: o que esse candidato propõe? O que ele já fez? O que depende dele e o que depende de outras instituições? Quanto suas principais propostas podem custar? De onde virão os recursos? Quem fará a execução? Quem estará ao seu lado no governo? O que existe de concreto por trás das promessas?

E, antes de considerar qualquer informação política como verdadeira, verificaria se ela é um fato documentado, uma promessa ou apenas uma interpretação pessoal. Essa análise não produz necessariamente a mesma escolha para todos os eleitores. Cada pessoa possui prioridades, experiências e valores diferentes. O que ela pode fazer é tornar a escolha mais consciente e menos dependente de informações isoladas, e conteúdos que chegam prontos pelas redes sociais.


Referências:
  1. Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Eleições 2026, eleitorado, calendário, cargos em disputa e regras do processo eleitoral. TSE — Eleições 2026
  2. Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — candidaturas à Presidência da República em 2026. TSE — candidaturas presidenciais 2026
  3. Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — planos de governo, prestação de contas e informações oficiais das candidaturas. TSE — Prestação de contas das Eleições 2026
  4. Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — financiamento e limites de gastos das campanhas de 2026. TSE — Fundo Eleitoral 2026
  5. Agência Brasil — decisão do TSE sobre o debate da Globo em 1º de outubro de 2026. Agência Brasil — Debate da Globo e decisão do TSE
  6. Constituição Federal — direitos políticos, voto e organização dos poderes. Planalto — Constituição Federal
  7. IBGE — dados históricos do PIB e Contas Nacionais. IBGE — Agência de Notícias
  8. Ipea — Mapa das Organizações da Sociedade Civil — informações sobre organizações da sociedade civil e suas características. Ipea — Mapa das OSCs
  9. Senado Federal — documentação da CPI das ONGs. Senado Federal — CPI das ONGs
  10. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) — subsídio do Presidente da República, Vice-Presidente e Ministros de Estado: R$ 46.366,19. Serviços e Informações do Brasil
  11. Câmara dos Deputados — subsídio dos deputados federais: R$ 46.366,19 mensais. Câmara dos Deputados
  12. Senado Federal — subsídio dos senadores: R$ 46.366,19 mensais. Senado Federal
  13. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) — subsídio do governador de São Paulo: R$ 36.301,53; vice-governador: R$ 34.486,63; secretários estaduais: R$ 32.671,36. Esses valores foram mantidos para 2026. Alesp
  14. Prefeitura de São Paulo — Legislação Municipal — subsídio do prefeito: R$ 35.462,00; vice-prefeito: R$ 31.915,80; secretários municipais: R$ 30.142,70. Legislação Municipal
  15. Presidência da República / Planalto — Decreto nº 12.797/2025 — salário mínimo nacional de R$ 1.621,00 a partir de 1º de janeiro de 2026. planalto.gov.br